Visita intempestiva

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Thomas me ligou nesta madrugada. Muito embora eu não tenha olhado no relógio, acredito que fossem por volta das cinco horas, e como ele disse que já fazia cerca de uma hora que estava acordado, certamente estava de vigília desde as quatro da madruga. Confesso que não fiquei muito satisfeito com o telefonema, mas ouvinte ávido, atento, compassivo e compreensivo que o sou, decidi ouvi-lo, pois notei que seria uma oportunidade de registrar uma boa história; e por outro lado, eu também já estava alerta a algum tempo pensando no que poderia escrever em um conto com um título chamado “As trevas tremem diante do amanhecer”, que talvez ainda saia para o papel neste dia.

Desta vez, a história que Thomas queria registrar diz respeito a uma visita que recebeu no dia 1 de janeiro em seu hotel fazenda, de dois senhores de Sampa, proprietários de duas empresas gigantescas, que apesar de estarem hospedados em uma pousada da cidade, decidiram visitar o hotel fazenda para eventuais hospedagens em datas futuras.

Segundo Thomas, a visita além de inesperada foi muito interessante, pois logo ao chegarem, o mais velho disse que gostaria de conhecer o hotel e que queria saber se ele era igual as demais pousadas da cidade, quando Thomas, surpreso com a forma inesperada do início da conversa, começou, pacientemente a explicar a forma de trabalho, acomodações e benefícios existentes no seu hotel.

O visitante insistiu muito em saber se o hotel funcionava como as demais pousadas daquela cidade; e então a intuição de Thomas o recomendou que demonstrasse que o hotel não se localiza naquela cidade, mas sim em uma esquina do mundo chamada Fazenda Glória; quando o visitante ficou insistindo se era ou não o município tal, e Thomas insistindo que era uma esquina do mundo chamada Fazenda Glória. Certamente o acompanhante do visitante entendeu que Thomas queria dizer não é a cidade que faz os locais; que não é a cidade que padroniza os atendimentos!

O curioso, é que o visitante estava muito incomodado com algum fato ocorrido onde se hospedou, e insistia muito em perguntar se quando ele solicitasse uma batidinha de boa cachaça com limão; o hotel iria servir a bebida de imediato; ou se seria necessário aguardar “alguém ir a cidade buscar o limão”.

Thomas tomou então a decisão de ouvir mais e começou então a dar pequenas informações e ver o cliente começar a responder as suas próprias perguntas, notando que sua recepcionista ficava agitada e preocupada; quando em um dado momento, decidiu não responder as questões, mas sim, demonstrar o seu produto, convidando então os visitantes a conhecerem as suítes familiares.

De início o visitante intempestivo ficou confuso, pois queria ouvir respostas – quem sabe que ele próprio já havia concedido respostas para as suas questões –
mas decidiu acompanhar Thomas na peque incursão, e ao conhecer o interior dos aposentos conhecidos como Suíte dos Imigrantes mostrou sua surpresa e contentamento, dizendo que era muito bom, mas que as demais suítes “de baixo”; ou seja, do Núcleo dos Jequitibás, eram muito pequenas.

Thomas ficou surpreso, pensando em como o visitante poderia saber o tamanho daquelas suítes, se ali estava pela primeira vez, mas decidiu insistir na visita e levou-o para conhecer aquelas acomodações, quando, percorridos os cem metros que a separam da recepção, viu o cliente manifestar sua satisfação dizendo que eram muito boas as tais suítes, e que não eram pequenas; ao que Thomas aproveitou para informar que todas aquelas vinte e quatro, tinham banheiras de hidromassagem; item este que não conhecia em nenhum outro hotel fazenda, e que a água era farta, com aquecimento central.

Em seguida, levou os clientes até o centro de lazer, enumerando as facilidades oferecidas naquele local de diversão, tais como pingue pongue, sinuca, carteado, pebolim, americam bar, sala de televisão, aparelho de videokê, e duas pistas de boliche; retificando que na realidade são pistas do bolão alemão, a forma com que o boliche é praticado no Sul do país.

Para sua surpresa, novamente o visitante o surpreendeu indagando para o que o boliche, se era necessário meninos para ficarem colocando os pinos de pé novamente, e se o hotel oferecia tais meninos!

Aumentava gradativamente a surpresa de Thomas, que munido de uma paciência que faz inveja aos monges tibetanos, optou por enfrentar a forma ofensiva de visita, perguntando calmamente ao visitante: Mas para o que o senhor quer os meninos para levantar os pinos se o boliche é eletrônico?

É claro que o cliente deve ter percebido que estava somente “pisando na bola” e nada respondeu; ao que Thomas também se fez de desentendido e convidou-os a visitar a quadra de tênis; quando, novamente para sua surpresa, o visitante, que havia informado de início que estava interessado no hotel pela informação de existir quadra de tênis, disse que não era necessário conhecer não!

Thomas novamente pegou uma pitada de paciência da caixinha que sempre carrega em seu bolso e convidou o cliente a contornar a linda praça que divide a casa grande do núcleo dos Jequitibás, informando a ele: vamos por aqui que é mais perto até o local onde está o seu carro; e ao chegar ao carro, diante da recepção do hotel, perguntou novamente se ele não queria ir até a quadra de tênis, quando o visitante informou que não queria caminhar mais. Thomaz informou então que a quadra estava pertinho; a apenas vinte metros do seu carro, quando o outro visitante interveio dizendo que era muito perto e que iria conhecer sim, demonstrando então sua satisfação em ver que a maioria dos benefícios, oferecidos pelo hotel, estavam todos a mão, todos a vista dos olhos; e que era uma beleza que a cachoeira distasse apenas cento e cinqüenta metros da recepção.

É claro que o visitante queria discutir preços, mas como ele não sabia quando pretendia se hospedar, nem a quantidade de suítes que iria ocupar; se apenas dez, ou as vinte e quatro, acabou recebendo a informação do preço de tabela, e que os descontos seriam discutidos diante das quantidades de hóspedes, suítes, e dias, do pacote pretendido pelo cliente.

Como não poderia deixar de ser, Thomas protelou a resposta do limão para a despedida dos visitantes, quando então, ao apertar suas mão, disse: Ah! Quanto a caipirinha, nosso hotel, igual as demais pousadas da região, também compra o limão na cidade, de forma antecipada a chegada dos clientes.

Walmir da Rocha Melges – Escrito em 4 de janeiro de 2006

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