Puro Passatempo

Há muito que Thomas havia catalogado os passatempos, aquela agradável atividade a qual os zelosos seres humanos dedicam parte do seu precioso tempo para distrair das preocupações mundanas, e que com o tempo acabou recebendo outras denominações, como hobby, divertimento, lazer etc. Por força da sua forma sistêmica de pensamento, em algum dia lá no passado ele se permitiu uma subdivisão lógica nos passatempos em dois grupos; o mais ameno e descomprometido: simplesmente passar o tempo; e outra, organizada e comprometida, que envolve uma dedicação extra e o dispêndio de mais tempo que o usual.

Percebeu desde cedo que alguns amigos jogavam cartas para se divertir, utilizando apenas o milho ou o feijão para a contagem dos pontos; enquanto outros jogavam a sério, mesmo que valendo apenas alguns centavos, e terminavam por discutir e brigar por causa do jogo.

Constatou da forma mais radical possível, que enquanto alguns jogavam futebol de salão para se divertir, outros faziam da quadra a sua profissão de fé; não somente em prol do aperfeiçoamento do esporte, mas também a custa das canelas dos adversários, e este foi um fator decisivo que o levou a optar pelo basquete, tênis de mesa, vôlei, e quando começou a chegar aos trinta, volveu sua atenção pelo tênis de campo, onde novamente percebeu que alguns entravam na quadra para divertir-se, enquanto que outros, para competirem ferozmente, onde uns poucos tinham a sorte de diferenciar dos demais e conseguiam fazer sua vida como professores ou jogadores de tênis.

É claro que as suas análises, sempre terminavam por firmar sua tese de que alguns jogam por prazer, diversão, sem se preocupar com o tempo, enquanto que outros aplicam um alto grau de persistência; e o tempo acabou trazendo novas constatações, quando percebeu que muito embora em alguns momentos alguém tenha tido um determinado passatempo apenas por distração, em outra época, outro tipo de passatempo, era revelado com outro grau de envolvimento.

E assim, foi numa fase altamente introspectória quanto aos passatempos é que encontrei Thomas; mais uma vez a beira das gigantescas estantes de livros daquele belíssimo conjunto e livrarias da Avenida Paulista; ávido por me contar suas experiências, observações, e conclusões. Certamente o consumo per capita de café no nosso país subiu bastante naquela tarde, pois acabei perdendo a conta de quantos expressos e capuccinos tomamos; restando depois somente a boca seca e amarga, e a língua levemente negra.

A tarde foi muito produtiva e interessante, pois me permitiu conhecer um lado que ainda não conhecia da sua personalidade e ele foi longe, no passado, no seu passeio histórico. Descobri então que o seu interesse pela leitura começou cedo, quando ainda menino – por volta de 10 anos – passava horas a fio ao lado do seu vizinho; o Senhor. Otto, aquela velho alemão que dizia ter fugido da guerra – mas que recebia pensão do seu país; lendo histórias em quadrinhos, quando passou pelas suas mãos os exemplares número um de vários heróis daquele momento; Tarzan, Flash Gordon, Três Patetas, Zorro, Cavaleiro Negro, Super Homem, dentre outros. O interessante é que aquele lazer era altamente introspectivo, e representa um verdadeiro paradoxo com o Thomas de hoje, falante e cheio de amigos.

Não sei se ele percebeu a coincidência; e certamente no alto dos seus dez anos, mesmo que soubesse do fato, não teria como simular a mesma situação; mas ao contar um caso ocorrido com seu pai, ainda menino e também por volta dos dez anos, foi surpreendido pelo amigo do seu pai, que, vindo da grande cidade de Bauru até aquele pequeno bairro do Gavanheri em Getulina, percebeu na semana que ali se hospedou, que um dos garotos do Seu Inácio, era diferente dos demais; que aquele garoto franzino e branquelo preferia passar o tempo lendo, o que contradizia o que o amigo Inácio havia falado da falta de escola para seus filhos; e então, ao descobrir que o garoto estava aprendendo aos solavancos e sopapos com a sua tia, decidiu lhe dar um presente, informando ao amigo Inácio que tão logo chegasse a Bauru, iria enviar – pela estrada de ferro; uma caixa de livros.

Surpresa para uns, desapontamento para outros e verdadeira magia para o garoto franzino, aquela caixa – pinho importado com bacalhau da Noruega; continha um verdadeiro tesouro que o levou a aprender mais, ampliando seus horizontes. Assim, se seu pai foi um autodidata, mercê da leitura, Thomas acabou repetindo a mesma experiência, com a diferença é que teve a oportunidade de passar pela escola que seu pai não pode.

O interessante é que seus passatempos são curiosos, sempre introspectivos; começando com a coleção de canetas – ele assistiu a antiga e desconfortável caneta de penas transformar-se nas primeiras descartáveis de plástico; passando pela sua fase de colecionador de selos, notas e moedas que o colocaram em contato com colecionadores de todas as idades, onde viu pela primeira vez na vida, que um simples filho de açougueiro ficava em alguns momentos devidamente nivelado – no conhecimento dos selos e moedas, com o médico que estudou na capital e fez especialização no exterior; fase esta que muito o deliciou; e quem sabe, tenha sido o início da sua carreira de eterno peregrino na observação da personalidade humana.

Depois dos selos, que acabou vendendo por bom preço – não era a toa que além de colecionar ele estudava cada item da coleção, e então conseguia bom preço; pois podia contar a história relativa as moedas e selos, demonstrando então, os motivos pelos quais eram ou não valiosos – e que permitiu ficar de férias por uma semana na casa dos tios em Araçatuba, passou a colecionar cartões postais, passatempo que o acompanhou até depois de casado, quando passou sua coleção para seus filhos, que certamente deixaram em algum canto, pois ele não se lembra de encontrar mais as suas antigas preciosidades em casa; e os cartões o levaram a se tornar um correspondente de amizade, conseguindo assim “conhecer” pessoas dos mais variados cantos do país, até do Japão, do Sul da África. Estados Unidos, e outros países que disse não se lembrar; com os quais trocava informações e cartões. É claro que eu não duvidei desta parte, pois ele me disse que os cartões mais importantes ainda estão guardados no seu arquivo; e que as cartas sua esposa guardou em alguma caixa; certamente, segundo ele, com ciúmes das meninas com as quais correspondeu, e que nunca se encontrou.

Ainda não sei como consegui ficar tanto tempo sentado naquela incômoda cadeira e bebendo café, mas quem sabe, foi ele quem me segurou dizendo que no final iria me contar do passatempo atual; e sem nenhum dó; e sem perguntar se eu tinha tanto tempo assim a disposição, continuava discorrendo sobre os seus passatempos.

Segundo sua tese, as canetas representaram apenas um ajuntamento por diversão, enquanto que os selos, moedas e notas; bem como os cartões postais houve dedicação, na medida em que passou a estudar os casos de cada um; e, provocado por mim, acabou dizendo que os gibis que ia todo domingo trocar na fila do cinema, foi apenas diversão; porém, pela forma como se refere aos antigos heróis, citando aspectos da personalidade de cada um, fiquei com a impressão de que ali houve na realidade uma dedicação.

Acho que até hoje ela faz coleções, pois quando fala na sua vida profissional, rapidamente elenca o número de cidades, de clientes, de diretores, de gerentes, de contadores, com os quais se relaciona; lembrando-se das kilometragens, tempos e paradas de cada percurso; e ao tentar entendê-lo; é claro, que depois de cinco horas e meia tomando café e ouvindo-o falar de passatempo, eu tinha de pelo menos, fazer um esforço para entendê-lo; acabei concluindo que ele preenche aquele perfil temperamental que os estudiosos do assunto classificam como perfeito melancólico; porém, quando lembro que ele tem um “que” explosivo e que é muito direto nas suas colocações, acredito que seja uma combinação com o perfil conhecido como forte colérico.

Achei muito interessante sua fase genealogista – certamente não foi por mero prazer; pois a quantidade de informação que conseguiu: 1.848 pessoas, sete países, o Melchior de 1.694, as estórias que escrevia sempre que suas pesquisas o levavam a parentes distantes; tudo isto, indica que houve estudo e dedicação; então, fico até pensando se isto foi um passatempo, ou uma obrigação. Até tenho dó do pai dele, que acabou fazendo o cadastramento manual de quase quinhentos parentes, todos catalogados e agrupados em famílias, devidamente inscritos em uma gigantesca árvore; porém não sei se o sonho que gerou o passatempo foi dele mesmo, ou se ele apenas embarcou no sonho do pai. Pelo menos ele assegura que a idéia de fazer o levantamento, naquele momento, foi dele, como uma forma de auxiliar o seu pai, que após muitos anos de vida operacional intensa, acabou se vendo obrigado a aposentar-se e ficar em casa; mas, parece que o sonho de levantar a família, foi o seu pai que transmitiu a ele, e o que importa é o material que aquele passatempo – dos dois; produziu; e que por vários anos foi motivo de produtivas discussões de todos os ramos da família.

Sua fase maçônica então, carregou-o ao longo de quase vinte e cinco anos, auxiliando a transpor limites, barreiras, bordas, e fronteiras; principalmente no campo da formação do ser humano, que como ele próprio diz de forma figurada, é apenas uma pedra bruta. O interessante é que ao escuta-lo sobre ter cumprido trinta e três cursos, feito algumas especializações, ter assumido alguns cargos, termino por pensar que este passatempo acabou por determinar o rumo da sua vida.

É claro que não vou falar do seu passatempo que é o desenvolvimento do hotel fazenda que possui com um sócio inglês, pois esta parte, eu já contei em outras situações, e certamente ainda vai ser motivo de outras estórias; apenas vou falar de uma brincadeira que ele me contou envolvendo ele, sempre ancorado nas operações do hotel; neófito em hotelaria, e quem sabe querendo provar para si mesmo que também pode ser autodidata como foi seu pai; e o seu sócio, profissional de grandes empreendimentos, que passa a vida rodando pelo Brasil e pelo mundo em busca dos seus negócios: Diz Thomas que enquanto ele fica “ralando” no hotel fazenda, seu sócio, fica “flauteando” pelo mundo.

Chegamos então ao passatempo da atualidade, que é a fase de escritor do Thomas, onde descobriu que o seu velhíssimo sonho, de escrever um livro, estava fácil de ser cumprido; que apenas faltava escrever, colocar no papel; ou seja, no inseparável notebook, aquelas histórias e estórias que sempre acometiam sua mente, e que, como qualquer outro, dizia: um dia vou escrever meu livro, e então colocarei isto nele. Como ele já casou, teve três filhos naturais, diversos filhos conceituais (empresas, entidades, aprendizes), e plantou mais de uma centena de árvores, nada mais apropriado que então escrever seu livro; quando então, como em todas as atividades, deparou-se com uma escolha, com várias indagações; pois descobriu que seu estilo de escrita envolve alguns gêneros literários divergentes; ora escreve cartas, ora contos, ora narrativas, ora crônicas. Mas isto fica para outra hora, pois já percebi que todos os passatempos de Thomas são persistentes demais, e então preciso de mais tempo para contar todos.

Walmir da Rocha Melges – Escrito em 31 de janeiro de 2006

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