Os papagaios voltaram

Os papagaios voltaram. Tagarelas como sempre, ou tagarelas como os seus irmãos e primos que nos visitaram na última primavera; e com eles, a certeza de que as mangas estão começando a amadurecer e a primavera já está se alongando, fato este comprovado com o florescer dos flamboyants que já estão mesclados de flores vermelhas que dão aquele colorido todo especial e tornam as fotos maravilhosas.

Outro sinal deste tempo lindo; aliás, todas as estações do ano são lindas, pois cada uma tem o seu “que” especial, é que estou ouvindo novamente aquele pequenino passarinho, não identificado ainda como nome científico, mas que em algumas regiões é conhecido como “Pedro Pita”, que são palavras construídas a partir do seu canto. E como tudo nesta vida, os visitantes trazem recordações.

Do Pedro Pita, recordo-me do meu pai Ulysses; e se assim o nomeio, é apenas para distingui-lo do meu outro Pai que sempre residiu lá no céu, aquele Pai Espiritual, que a todos criou; inclusive Ulysses, meu pai material, que após o passamento da matéria também retornou a aquele que o criou; mas não vou entrar nestes detalhes, pois isto é dogma puro, e dogma não se discute, apenas aceita como verdade ou não.

Se me lembro do Pedro Pita não é porque eu o tenha visto algum dia, mas apenas porque um dia Ulysses me apresentou ao seu canto, informando que apesar de pequenino, ela canta com uma potência tão grande que pode ser escutado a quilômetros de distância; e assim, este pássaro, que não consegui ver ainda nem em catálogos ou livros, sempre ocupou minha imaginação, não somente quando Ulysses ainda vivia, e eu o informava de todas as vezes que tinha ouvido o seu canto; como agora, que ele já repousa junto de Deus, e que é automaticamente lembrado com o cantar deste espécime.

Acho que um dia eu o vi na cerca da Fazenda Glória, pequenininho e nervoso como uma Corruíra; que logo foi aos saltos alados de um local para outro e desapareceu da minha frente, mas não sei se era o próprio, ou apenas a minha imaginação; e se não o vi ainda, certamente algum dia serei apresentado a ele, pois disto tenho convicção.

Da mesma forma aos papagaios, que hoje povoam apenas o espaço temporal reservado a sua visita anual; e não que ele não venha nos visitar outros meses do ano; mas estes meses, outubro a dezembro são os que eles infestam nossas mangueiras, fazendo uma algazarra incrível, enquanto se alimentam das mangas ainda verdes ou meio amadurecidas, e ficam conversando, aos bandos – já contei mais de 50, somente em uma árvore – até tarde da noite, destas noites maravilhosas que nos proporcional luz até pelas 20 hs em função do chamado horário de verão; e falando em lembranças, certamente haverá um tempo em que eu venha a lembrar-me, com carinho e nostalgia de toda esta algazarra.

Se esta época acontece para todos, certamente para mim também acontecerá e então, vou guardando, na minha memória boas fotos deste espaço, como também os sons especiais e particulares que eles fazem; e quem sabe, quando isto acontecer, haverá crianças que queiram ouvir estas histórias, reais, que com o auxílio de Deus, poderão ser contadas na forma mágica para encantar os pequeninos.

O que será que eles conversam; nervosos e falantes, encarrapitados nas mangueiras? Falam da sua vida aérea, ou do medo de que o homem suba nas mangueiras e os impeçam de se alimentar? Estão apenas se alimentando, ou também se divertindo? Comem apenas mangas neste período, ou elas representam apenas o café da manhã e o jantar da noite? E ao longo do dia, do que se alimentam? Aqueles que comparecem a tardinha são os mesmos bandos que vieram pela manhã?

Walmir da Rocha Melges – Publicado originalmente em 15 de outubro de 2005

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