O Reformador

Walmir da Rocha Melges – Postado originalmente em 27 de setembro de 2005

Posso afirmar que Thomas sempre foi um reformador, e durante toda vida pude aferir sua férrea força de vontade de tentar mudar o mundo, até que um dia ele percebeu que nem todos podem ser mudados; e olhe que ele se debruçou a estudar as diversas motivações que levam o ser humano a evoluir, desde as primárias ligadas com a sobrevivência, com a busca de status social, com a pressão exercida pelos parentes, pelos amigos, pelo meio social, como também pela necessidade crescente de recursos financeiros, como as novas oportunidades que a vida moderna nos oferece.

E assim no decorrer da sua vida toda fez uso das variadas ferramentas oferecidas pelos meios econômico, social e psicológico.

Lembro-me como se fosse hoje, o dia em que ele foi apresentado ao “desconfiômetro”, aquele pequenino aparelho, que se bem acoplado atrás da orelha esquerda do indivíduo, pode motivá-lo a “desconfiar” de tudo que é necessário para a sua vida, qual seja, de desconfiar de que deve trabalhar, de que precisa ter dedicação e persistência, do respeito ao próximo, de que já está falando demais; de que já está na hora de ir embora; ou sejam tudo aquilo que o indivíduo deveria saber há tempo, mas que não sabe, ou ainda sabe, mas teima em tergiversar.

Lembro-me também da sua decepção ao descobrir que o tal aparelhinho, apesar de existir, apesar do fato de que muitos o utilizam, aliás, com muita eficiência, ele ainda não havia sido inventado, nem estava sendo vendido no mercado da esquina.

Que pena, dizia o Thomas, pois este aparelhinho, se utilizado por todos, será de extrema utilidade para a humanidade; mas, por outro lado, no seu íntimo ele sabia que daí o ser humano seria um verdadeiro “chato de galochas”, e isto, quem sabe, o auxiliou a encontrar outras alternativas para solucionar os problemas de conscientização; acho que foi quando ele conheceu a corrente de pensamento que apregoa a realização do treinamento conceitual nas empresas; não aquele treinamento motivacional, destinado a deixar os vendedores de “olhos arregalados” na sexta feira cedo, para venderem tudo que puderem, ou que os seus aproximados possam comprar, no final de semana; mas que precisa ser novamente repetido semana após semana, pela vida toda.

Acho que ele até tem razão, pois se os estudiosos dizem que o indivíduo pode ser motivado pela recompensa ou pela consciência, quem sabe pela consciência é melhor, pois ele vai guardar para sempre aqueles conceitos, e pela recompensa ele fica sempre dependente da premiação.

Mas, enfim, tudo muda e se altera; tudo fica velho, e então Thomas passou a utilizar-se de metáforas para dizer o que precisava; até inventou de usar os personagens Calvim e Harold (garoto e tigre; ou será garoto e leopardo?) como tema de uma sessão onde tenta demonstrar que tudo na vida depende de uma decisão, e que as decisões implicam em uma intrincada sucessão de novas decisões.

Usou também o tema do livro “Quem roeu meu queijo”, e outros mais; e até que ele tinha um bom faro para descobrir boas fábulas e metáforas; mas também, todas elas acabam por envelhecer rapidinho, e daí caem no domínio público, mercê das maravilhas da internet; e assim, debruçava Thomas a beira de um poço de necessidades a serem supridas, de pessoas a serem conscientizadas, ou seja, dentro de uma terminologia lunar e interespacial, serem “abduzidas” em favor de boas práticas profissionais.

Enfim, o seu último encantamento, pouco antes de diminuir um pouco a velocidade – afinal de contas nem ele estava mais conseguindo acompanhar – descobriu outro aparelhinho fabuloso e superinteressante; aliás, o aparelho seria um candidato para demonstração e publicação na revista homônima.

Thomas encontrou então o “pensonômetro”; lembro-me que ele até me falou quem foi o inventor, tornando-se então fanático defensor e divulgador do pensonômetro; que além de medir as ondas curtas do indivíduo (não me pergunte para que; pergunte ao Thomas), provoca uma tempestade cerebral na parte externa do cérebro (principalmente quando existe muito vento), e o obriga a uma coisa sem muita importância, que é de conjugar o verbo pensar.

Assim tudo se solucionou; vamos comprar pensonômetros em quantidade, haja vista que o preço de lançamento é muito atraente, o prazo de pagamento idem, e isto vai “fazer um bem muito grande” para todos; e aí então começaram as barreiras, pois os futuros usuários do tal aparelho descobriram que “pensar cansa e dói a cabeça”, que o pequeno aparelho pesa muito pois é feito de chumbo puro, é pintado e cinza, e tem letreiro vermelho pulsante que fica dia e noite ligado, obrigando então o usuário, mercê do seu peso e do seu pisca-pisca, ficar pensando; alias, tentar pensar, pelo menos em uma maneira de desliga-lo.

Foi neste tempo que Thomas descobriu que o pensonômetro tinha as mesmas qualidades do desconfiômetro: era difícil de produzir, ainda não havia sido fabricado, e não estava disponível no mercado da esquina.

Que fazer então, já que Thomas detém natureza inquieta e está sempre sedento de realizações? Realmente o problema poderia ser muito grande para ele, mas como tudo se ajusta nesta vida, ele acabou encontrando as suas respostas junto Daquele Que Tudo Vê; Que Tudo Organiza; quando então descobriu que Quando Ele Passou Pela Terra, também sofreu dos mesmos problemas que Thomas, pois ele Falava Para Todos, mas eram poucos os que o ouviam; alguns ouviam e não compreendiam, e outros ouviam (como ouvem até hoje), compreendiam (como compreendem até hoje), mas não persistiam (como não persistem até hoje); e então Thomas se aquietou, pois se Aquele Que Tudo Vê, Aquele Que Tudo Decide, não conseguia motivar ou conscientizar todos, somente, a uns poucos, ditos Escolhidos, então, quem era Thomas, para pretender reformar o mundo?

E será que ele realmente se aquietou? Claro que não, apenas ele hoje tem mais pé no chão; pois afinal de contas, permanece nele ainda a Esperança de que o amanhã será melhor, de que um dia o que diz será ouvido e compreendido; e então, recebeu seu presente, justamente em um período importante, que é o Dia dos Pais, e daí, viu que pelos menos para alguns, o que falou no passado, produziu resultados, mas isto já é outra história, que um dia também contarei.

Que interessante! Assim que Thomas se debruçou a tentar entender o que Ele Que Tudo Vê vinha dizendo há milênios, começou a colher os frutos das suas parcas sementes filosóficas, e então entendeu que deveria começar a plantar sementes espirituais!

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