O Homem e a caixa com duas cobras

Em nenhuma margem de dúvida aquela viagem iria ser diferente das demais, e nem o ônibus aportou na pequena cidade de Cafelândia, antigo berço dos cultivadores de café, logo apareceu aquele homem esquisito, com roupas extravagantes e uma grande caixa coberta com um saco de amendoim com cascas e um travesseiro branco e sujo em cima; amarrados por um pedaço de corda.

Mitiko, minha mulher, como diversas outras pessoas, haviam tomado o ônibus em Lins, de onde ela iria até Ribeirão Preto onde eu já a aguardava, para em seguida rumarmos para Santa Rita do Passa Quatro onde se localizava nosso hotel fazenda, em um bucólico rincão da Serra de Santa Rita. Mitiko já havia saído de casa preocupada, pois não havia conseguido vencer seus compromissos profissionais e particulares e deixava, a contragosto, nossa filha mais nova, Andréia, advogada formada e portadora do registro na OAB, para cuidar da sua mãe; justamente em um período em que iríamos receber um grande grupo de pesquisadores de 14 países, vindos para participar da Santa Rita School, uma escola de verão organizada por Cientistas do Colégio Imperial de Londres em conjunto com professores e doutorandos da Usp São Carlos; período em que todo reforço profissional seria muito importante, principalmente da nossa filha Andréia que, apesar dos seus 25 anos reúne excelentes qualidades para comandar a cozinha, onde é chamada, pelas funcionárias, de Walmira, as quais fazem; certamente um elogio, com o trocadilho do meu nome.

E assim, subiu naquele ônibus aquele personagem esquisito, após trocar cumprimentos nada amistosos com o motorista, o qual insistia em que ele abrisse a sua caixa; para que, ele motorista, responsável pela segurança dos passageiros, e também desconfiado de tão peculiar figura, insistia em examinar o conteúdo enquanto que o passageiro, já de bilhete nas mãos, insistia em dizer que não era da conta dele; tendo sito tão contundente, que subiu ao ônibus sem abrir sua caixa, deixando todos intranqüilos.

Como o trecho até Ribeirão Preto é longo, mais de duzentos kilômetros, muito se especulou durante aquela viagem, sobre o conteúdo da caixa daquele personagem, onde cada passageiro oferecia as mais tresloucadas opiniões; mas, se seguramente nenhum deles ofereceu a alternativa correta, pelo menos tiveram um bom assunto para distrair, esquecendo-se até, por bons momentos, viajantes que o eram, das malas do mensalão e das desventuras da Debora Secco na novela América.

Chegando em Ribeirão Preto, descem todos, pois é ponto final; mas poucos tiveram a coragem de se aproximar daquele furtivo viajante e da sua caixa esquisita, o mesmo acontecendo com minha mulher, que consumiu nossos primeiros 15 minutos em manifestar a sua indignação contra o motorista por ter permitido a entrada de tão arriscado viajante; quando eu, para acalma-la, decidi fazer uma dissecação do assunto, e ao mesmo tempo em que explicava a ela que se ele já portava um bilhete, não poderia recebera negativa da viagem; e que o motorista realmente havia pisado na bola, pois o conteúdo da caixa era realmente perigoso para os demais.

De repente, minha mulher me fita, e diz: mas como é que você pode afirmar que o conteúdo é perigoso, você não estava lá; quando eu respondi, velozmente que não era necessário estar lá para saber o conteúdo da caixa; e que pela análise comportamental do homem que ele me fornecera, bem como a imagem que havia transmitido da caixa, o seu tamanho, os buracos de lado, o saco de amendoim em cima, e o travesseiro sujo abafando a tampa, já me dava plena certeza do conteúdo.

Minha mulher ficou uns instantes me fitando, com o olhar meio desconfiado, mas certamente desconcertada com minha revelação; quem sabe já pensando se seu marido possuía poderes mediúnicos e em seguida tascou: então me fale o que tinha dentro da caixa.

Como a conversa já tinha produzido os efeitos que precisava, tasquei eu do meu lado: Aquele homem estava com medo porque estava transportando duas cobras jararacas, e o seu receio de ser descoberto era que as cobras pudessem fugir e ele ser denunciado ao Ibama, pois ele não tinha se dado ao trabalho de pedir autorização para captura-la, nem muito menos transporta-la, e a forma de transporte escolhido colocava em risco todos que estavam próximos dele, o que poderia, inclusive, causar-lhe uma condenação criminal por atentado contra a vida, além de ser processado pela Sociedade Protetora dos Animais.

Passei então a discorrer para ela sobre os problemas daqueles que protegem os animais em detrimento da segurança dos humanos, e a cada palavra, solidificava minha assertiva, a tal ponto, que pelo menos eu, até hoje, acredito que a caixa continha as duas jararacas; e ai de quem decidir me comprovar o contrário; ele que vá procurar o tal homem e tirar a prova dos noves.

Quem sabe seja esta uma das razões pelas quais minha, avó sempre dizia que uma mentira contada de forma repetida e com convicção valia mais que muitas verdades absolutas, e assim, como tudo nesta vida é relativo, com exceção da certeza da morte, fico ainda com minha assertiva de o homem, após os sustos e desconfianças de seus semelhantes, deve ter jurado que nunca mais iria transportar duas jararacas em uma caixa tão frágil como aquele.

Walmir da Rocha Melges – Escrito em 25 de setembro de 2005

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