Minha Crônica (Ulysses Melges – 1981) – Continuação

“No dia 19 de julho de 1916, nasceu em Jaú, um menino, que foi posto entre estas linhas, para que ele não pudesse desviar nem para a esquerda, nem para a direita”.

Esta crônica é justamente para deixar em paralelo as duas fases da minha vida: a material, com todas as peripécias, que dá a impressão que fui o ser mais azarado, nesse tempo em que os outros fazem tudo o contrário, e saem bem. Enquanto eu fui proibido ou impossibilitado de fazer, sendo dominado por uma força oculta, em que eu tinha consciência dela, mas procurava obedecer, sabendo que isto seria o certo.

Portanto, contrariando todos meus desejos, abstendo-me de fazer o que todos fazem, para aproveitar a vida.

Não que eu seja um homem de sentimentos diferentes. Sou, posso afirmar, um homem normal como outro homem qualquer, sujeito as mesmas paixões que outro qualquer, só que não as praticando como os outros fazem.

Esta é então a face material de minha vida, e paralela a esta, está então a fase espiritual, sempre no mesmo passo, no mesmo ritmo, acompanhando a outra. Então é daí que vem uma força oculta que me freia o que eu desejava fazer, porque existe dentro de meus sentimentos que esta sob meus domínios, um outro sentimento, que meus próprios sentimentos desconhecem, mas obedecem com inteira submissão.

A respeito disso, já escrevi um poema, o qual vou também vou anexar a esta crônica, porque neste poema diz justamente a respeito do que estou escrevendo agora.

E, assim durante toda minha vida, sempre contrariei meus desejos, fazendo o contrário, porque este sentimento que domina meus sentimentos, a ordena, e os outros submissos, obedecem.

Ligando toda esta complexidade de meus sentimentos, ao meu raciocínio de homem, eu concordo, porque cheguei há tempos, a uma conclusão, que meu próprio raciocínio também é dirigido por uma força, que em função de segundos, manipula meus sentimentos, para que obedeça fielmente e, portanto sempre fiz e faço o que meu raciocínio determina no momento, e não o que eu quero.

E é exatamente por tudo isso que estou escrevendo nesta crônica, narrando minha vida, com duas linhas opostas paralelas, deixando bem claro, que este aspecto que tem em meu procedimento, de errado, termina sempre certo, ou com bons resultados.

Até hoje em minha vida, desde a infância, e em minha mocidade, entre amigos, e meus familiares, bens poucos, conseguiram me entender, porque ninguém viu ainda em mim estas linhas paralelas, interligadas por uma força invisível, que equilibra meus passos e sentimentos, e nunca me deixou cair, ou dar um passo diante dos maiores perigos e, assim então, tudo o que parece errado em mim, está sempre certo, não por inteligência, ou sabedoria minha, mas por essa força que me domina, que é vinda de uma origem que o homem desconhece, mas que pela graça desta força, eu conheço, e isso vou esclarecer em outras páginas.

Vou deixar anexo também a esta crônica, outros poemas, que já escrevi há tempos, e que também fala justamente deste enigma que existe nestas linhas que traçam minha vida, e que nem meus familiares conhecem, porque eu mesmo tenho momentos que passo por surpresas, fazendo algo que nunca pensei e que nunca fiz.

Já há anos que venho escrevendo poemas sobre a minha vida, que são coisas reais, e não fantasias. Só depois que escrevo é que reconheço que é real o que escrevi, e que antes não tinha pensado nisso. São muitos detalhes em meus episódios que creio que vai ser difícil encontrar palavras para esclarecer tudo.

Conforme já esclareci, que minha vida está traçada entre duas linhas paralelas, vou dar o nome a cada uma: a esquerda de linha matéria, e a direita de linha espiritual.

E surgindo ao mundo entre estas duas linhas, no ano, mês e dia, de 19 de julho de 1916, na cidade de Jaú, estado de São Paulo, meu pai era administrador de fazendas, e eu nasci na Fazenda Satantonina, que era próximo a cidade, pertencia a um Coronel Almeida Prado, quero citar que próximo de Jaú está o marco do centro do Estado de São Paulo.

Minha mãe sofria de malária na minha gestação, e creio que com isso, é que eu já nasci com problemas de saúde, seria como uma desidratação, eu tinha diarreia e vomito, e era um menino raquítico.

Jaú, já nesta época era uma cidade do interior que tinha bons médicos, e o processo de tratamento na época, era apenas as receitas de poções de extratos fluídos, e depois de um ano, em que meu pai recorreu todos os médicos da cidade, e não tinham mais o que receitar a não ser as poções, encontrou-se sem tratamento o meu caso. E, foi aí que o farmacêutico que fornecia os medicamentos para minha família, fez uma poção com uma fórmula sua, e que deu boa melhora, e esta receita meu pai mandava formular nas farmácias, quando viemos para Noroeste e que serviu como paliativo até os sete anos de idade.

Recordo perfeitamente quando viemos para Noroeste para a região de Pirajuí, onde meu pai arrendou uma fazenda que estava abandonada, ele já na época com dez filhos, não tinha condições de viver com um ordenado, e então, se dispôs a ir para o sertão, onde pudesse ao menos produzir de tudo, o que foi possível, para ter ao menos alimentação abundante, e mais do que isso ele conseguiu, produzindo alimentos, como feijão, arroz, milho e tudo o que se produzia na terra, que era fértil numa área de quatrocentos alqueires. Só que a sobra de tudo era jogado fora, por não ter a quem vender, porque os moradores desta região todos produziam, e para levar para as cidades de consumo, não compensava.

Mas, o principal assunto nisto é, que com a idade de três anos, me recordo perfeitamente, desde a viagem de carro de boi, que da estação de estrada de ferro até o local, era de trinta quilômetros, de estradas de sertão, que só transitava carros, carroças e cavaleiros, não existia caminhões e nem tinham estrada para eles, se caso houvesse.

Recordando desde a viagem de carro de boi, e tudo que se passou lá, nos dois anos em que moramos lá, é que já tive a memória de ter escrito um poema sobre tudo, que vai acompanhar estas páginas, que irão falar de minha infância.

Depois de um dia de viagem, em que íamos todos da família, meus pais e os dez filhos, e também a mudança que era reduzida em pouca coisa, tudo dentro da esteira de um carro de bois, a esteira do carro é que forma a carroceria do carro, e assim podemos calcular que o espaço era pequeno para tudo, mas era o único meio de transporte, e assim como se fosse uma ninhada de gatos dentro de um balaio, foi a viagem, da estrada de ferro, até o local da fazenda.

Eu me recordo, até hoje tenho aquela imagem gravada na mente, de ver com o carro andando, as árvores que iam passando por cima do carro, como se fossem gigantes que para mim, eram coisas nunca vista, e só Deus sabe que apenas com a idade de três anos, já tudo corria pela minha mente como se fosse uma fita gravada.

Para mim está sendo fácil de narrar tudo com detalhes, creio que vai ser difícil, de quem ler minha história, acreditar que tudo depois de setenta e dois anos, ainda está guardado tudo com os detalhes, mas em outras páginas, irei esclarecer como e porque está tudo guardado.

Estou esclarecendo algo, do começo de minha vida, que fica como uma introdução dela, e vou nesta página deixar claro minha personalidade, que foi na infância, na mocidade e permanece até hoje, e creio que não vai ser modificada nunca.

Isto eu estou fazendo, antes de entrar nas linhas paralelas, conforme já disse, porque entrando nas linhas paralelas, vou descrever minha vida do começo ao fim, em que mostrarei a vida material de um lado, e a espiritual que acompanha do outro lado, mostrando todos os aspectos, que interliga as duas linhas, que seguem do começo ao fim.

Em fases consecutivas, desenrolando todos os episódios que os acontecimentos da vida material, tendo inteira relação com o reflexo na vida espiritual. E agora, sobre minha personalidade que é um fato, e não uma fantasia.

Já descrevi em outra página, sobre meus sentimentos, que são coordenados por um comando, de um outro sentimento, que está invisível para a matéria, mas bem patente no espírito, e este sentimento é representado por um tribunal de consciência, que consiste em vários membros como: o cristianismo, como o presidente; o humanismo como conselheiro supremo; o respeito ao direito alheio, como promotor; a tolerância como defesa de sobrevivência; e o direito próprio, como juiz de sentença.

E depois que os problemas que me agridem, tenham passado por esse tribunal, a minha consciência age imediato, para dar a sentença, a quem deve, e por algumas vezes, essa sentença caiu em minha própria cabeça, e neste caso, eu não tenho a defesa, porque é a sentença vem de minha própria competência.

E, então eu recebo a sentença, e respondo por ela, e isto fica guardado nos arquivos das experiências, que é uma coisa que sempre fica bem caro na vida.

Portanto, minha personalidade que parece ser bem estranha na vida dos homens, para mim é algo bem normal. A minha mente sempre foi e é como uma máquina que alguém ligou e perdeu a chave, e assim nunca pude desligar, tem sempre uma fita gravada, que corre pela mente, e em fração de segundo, eu sei tudo o que está acontecendo.

O meu computador mental, não sou eu que opero nele, mas creio que quem opera nele é o próprio quem o inventou. Estou procurando esclarecer bem quem sou eu, qual é minha maneira de agir e de pensar.

Uma das minhas maneiras de agir, é não me impressionar com a opinião alheia sobre mim, porque conforme já descrevi nesta página, eu procuro proceder e agir, de acordo com meu tribunal de consciência, porque quem vai responder pelos meus atos, sou eu então só eu serei capaz de resolver meus problemas, e daí, a opinião alheia para mim se torna inválida, porque a opinião alheia é igual aquela estória do homem, o menino e o burro.

Um exemplo, se o que eu estou escrevendo sobre mim, a opinião alheia achar que tudo é uma baboseira, não vai me atingir, e nem vou deixar de ir até o fim, com aquilo que proponho a fazer.

Jamais acompanhei a moda em qualquer sentido, ou a maneira de agir igual aos outros, costumo riscar meu próprio figurino, quero dizer, fazer tudo da minha maneira. Como já disse, não importando com a opinião pública. Gosto daquilo que faço e daquilo que é meu, e toda a grandeza alheia não me impressiona. Jamais fiz algo por influência de outros, só faço aquilo que está dentro de meus princípios, ou deixo de fazer, mesmo que eu seja a parte prejudicada. Todo o relato que vou fazer, a respeito de minha vida, não é para persuadir a ninguém, fica para quem quer acreditar.

Deixando que a fita gravada, conforme já disse, ocorra em minha mente, vou descrever sobre as linhas paralelas.

Creio que ao nascer, entrei entre duas linhas paralelas, a esquerda, a linha matéria, que Deus criou para que sua obra a seguisse, e a direita, a linha espírito, para que coordenasse a obra que foi criada por Deus.

Então a obra de Deus, o corpo animal foi criado um corpo animal diferente dos outros, para que tivesse domínio, sobre todos os corpos animais, e tudo o que existe sobre a terra, para que a obra de Deus prosseguisse eternamente.

A linha a direita: o espírito, o corpo invisível, a imagem de Deus, porque diz o Evangelho, se há corpo terrestre, também há corpo celeste. O corpo terrestre, visível aos olhos, e o corpo celeste, invisível aos olhos, mas visível, a visão espiritual, a quem Deus dá. A quem Deus dá, é por dádiva, mas não é um privilégio, Deus dá a todos que queiram, basta que obedeçam as regras, segundo o Evangelho, para alcançar esta dádiva, que Jesus veio para deixar a todos.

No dia 19 de julho de 1916, nasceu em Jaú, um menino, que foi posto entre estas linhas, para que ele não pudesse desviar nem para a esquerda, nem para a direita.

O Evangelho diz que os escolhidos por Deus, são escolhidos desde o ventre, não posso dizer que este seja o meu caso, mas posso dizer que fui posto entre as linhas, e até hoje, não pude desviar delas, e principalmente depois que tomei o conhecimento disso, procurei agir corretamente, para poder alcançar maiores conhecimentos, então estou indo sempre para frente, sem retroceder.

Até os três anos, sei o que meus pais disseram, mas a partir dos três anos em diante, vou descrever com detalhes, tudo sobre minha vida, porque recordo perfeitamente, está tudo gravado em minha mente.

Nesta fazenda que já citei em que vivi dos três aos cinco anos, sofri acontecimentos relevantes, como um banho de água fervente. Minha irmã mais velha, que ajudava minha mãe nos serviços de casa, levava um tacho de água fervente, para jogar num balaio onde tinha chocado uma galinha com uma ninhada de ovos, e essa água era para matar os piolhos que criavam no ninho, quando a galinha chocava, e eu vestido apenas de uma camisola, montado em meu cavalo que era um cabo de vassoura, vinha correndo e choquei com o tacho que minha irmã levava, e esta água toda derramou em meu ombro, correndo por todo o meu corpo, do qual existe até hoje a cicatriz em meu ombro.

Com este banho de água fervente, levantou bolhas enormes em toda região que correu a água, e minha mãe gritando por socorro, para uma única vizinha que existia no local, um casal de negros que eram empregados do meu pai, essa mulher vindo socorrer, disse que precisaria passar querosene, para que não inflamasse, e feito este único curativo, por não haver outro recurso, veio dobrar a queimadura, meu pai só chegou horas depois, porque estava trabalhando longe pelo resto do dia. Á noite eu passei em desespero, e também meus pais, porque não havia outro recurso, e só no outro dia, é que meu pai foi num lugarejo a vinte quilômetros de distância, que levava um dia para ir e voltar, o único remédio que o boticário de uma pequena farmácia, tinha esse caso, uma pomada a base de enxofre, cujo cheiro me fazia passar mal, ficando assim por vários dias, deitado na cama em que tinha como lençol, uma folha de bananeira, e outra folha de bananeira como cobertura, porque com a pele toda dilacerada, não podia usar roupas, nem cobertas, e recordo-me que o único brinquedo que eu tinha, era uma prata de reis, como único brinquedo.

Durante dois anos, sofri outros problemas, como o de um berne, que alojou em minha cabeça, e não podendo ser extraída, como era de costume, ele inflamou, e foi através de remédios ou aplicação de cozimento de ervas, conforme era usado no sertão, é que se conseguiu, depois de muitos dias, sanar o problema, e com isso meu sofrimento e de minha mãe em cuidar dia e noite de mim, que reclamava muito, porque doía toda a cabeça.

E continuava o problema de desidratação, porque ser na Noroeste, um clima muito mais quente do que o de Jaú, que concorria para muitos outros problemas de saúde, que é normal no clima quente, e assim neste local creio que foi pior para meu estado de saúde, e eu era então aquele menino magrelo, doentio.

E minha mãe também piorou muito seu estado de saúde, e meu pai tinha que trazer ela para Lins, em que ficava muitos dias em tratamento, ficando em casa de um tio de meu pai, tio Amaro, que tinha uma pequena fazenda nas proximidades da cidade, que de cidade tinha o nome, tinha um médico, uma farmácia, e alguns pequenos armazéns, conforme se dizia, era o tipo de casa comercial que tinha de tudo um pouco, alimentos o mais necessário, ferragens, armarinho, tecidos, o necessário para suprir a necessidade de uma pequena população, em que desenvolvia a agricultura, e o plantio de café.

E enquanto minha mãe ficava dias e até meses fora, o sofrimento para mim era cruel, porque minha irmã mais velha, que tomava conta da casa, fazendo de tudo, com a ajuda de meus irmãos, ela tinha apenas quinze anos, ou quatorze anos, éramos dez irmãos, e no segundo ano nasceu mais uma menina, ficando em onze, e essa ninhada de gatos sem maiores recursos, ficava então quando minha mãe vinha para tratamentos, pode se dizer, isolado do mundo, porque o vizinho mais perto, era de uma distância de quatro a cinco quilômetros, e toda a região, era mata em todos os quadrantes, com uma entrada de carro de boi conforme já disse em outra pagina e que ficava isolada no verão com as chuvas, que enchiam o rio que não tinha ponte, que quando enchia com as chuvas, isolava toda a região.

As condições de transporte de meu pai, quando era sozinho, acavalado em um burro, e quando levava mamãe, era deitada em um colchão dentro da carroça, num percurso de trinta quilômetros, de estrada de sertão, de buracos e tocos aparados sobre a terra, em que a carroça percorria com cambalhotas, levando um dia para fazer esse percurso, porque em meio da estrada, teria que parar durante horas, para dar descanso aos burros, que eram em números de quatro.

Durante esse percurso, tinha apenas duas ou três casas a beira da estrada, o restante era apenas matas, nas quais, em uma madrugada, numa destas viagens, uma onça chegou a correr atrás da carroça, querendo atacar, e isso era comum nesta região que estava sendo habitada, no ano de 1919.

E o maior perigo neste caso, não era ser comido pelas onças, que não chegavam a tanto, mas de ser espatifado com a carroça, porque se tornava impossível deter os burros que disparava, mesmo com a carroça brecada.

Embora pareça estória essa narração, posso afirmar que era um fato, porque isso foi normal no sertão, todos os que moraram no sertão do Brasil, poderão confirmar este fato, não inédito, mas normal.

Eu não irei persuadir a ninguém, sobre estes fatos, mas muitos que passaram por estas circunstâncias, poderão confirmar.

Vou dizer que eu creio, porque me recordo perfeitamente, então creio que sofri muito durante estes dois anos, neste lugar, que em todos os quadrantes eram matas virgens, com uma só estrada de saída, como já citei transitável só para cavaleiro e carroça e, intransitável nas épocas de chuvas, porque o rio sem ponte, como já disse transbordava.

Toda a natureza neste lugar era deslumbrante como a vegetação, a flora e a fauna, por ser um lugar de matas virgens, em toda a região, e recordo-me de andar atrás de multidão de borboletas, que se tornavam deslumbramentos de cores.

Quando minha mãe vinha para Lins, acredito que eu não dormia, porque me recordo perfeitamente que ficavam horas seguidas, pela madrugada afora, ouvindo os galos cantarem, e isto era para mim mais do que uma solidão, por sentir-me como se estivesse num mundo estranho, porque não tinha a quem reclamar, era como sentir toda a tristeza do mundo num só momento, era uma implosão na alma, enquanto ninguém via nem ouvia o que eu nunca disse a ninguém, porque se dissesse, nem teria palavras para traduzir, mas recordo hoje, como se estivesse ainda naquele lugar misto de sofrimento e deslumbramento, porque eu me sentia deslumbrado com a natureza que nos rodeia, como já disse.

Creio então que, neste momento, neste lugar, eu entrei para as linhas paralelas, que passo a descrever.

O meu sofrimento era sufocante, de morte para a matéria, a linha esquerda, conforme já expliquei em páginas anteriores, mas na linha direita, a espiritual, estava o Senhor, o seu poder, como um bálsamo que suaviza a dor, usando o deslumbramento da natureza que existia em meus olhos, e minha mente, que talvez os demais de minha família, não vissem, nem sentisse a mesma coisa, não sentiam no mesmo aspecto em que eu sentia e, assim equilibrava os meus sofrimentos, para que eu não desesperasse, e assim vem vindo em toda minha vida, sem que ninguém saiba, deste equilíbrio.

Estas linhas paralelas, em que me refiro, existem para todos os seres humanos sobre a terra, e não é um privilégio meu o que acontece é que bem poucos conhecem que estamos entre duas forças, que nos segue, uma negativa a esquerda e a outra positiva a direita.

A negativa faz tudo para nos desviar, aproveitando do revés da vida do homem, que é normal para todos, desviando de sua rota, para que perca a proteção da positiva, porque se o homem desviar para a esquerda, partindo para o mal, perderá muito nesta vida, e a vida eterna.

E se ele manter-se fiel e permanente, a direita que o protege, será protegido nesta vida, e herdará a vida eterna ou a salvação do espírito.

 As linhas a que me refiro, falando segundo as palavras do Evangelho, palavras que Jesus deixou bem claro, para que o homem não se engane. O homem sobre a terra, está entre Deus e o diabo, (Satanás), o espírito do mal, com muita fantasias falsas, procura iludir o homem, levando para o caminho da perdição, e as direitas está Jesus, o filho de Deus, e único mediador, perante o homem e Deus, e cabe ao homem escolher, entre o bem e o mal, para seguir sua vida passageira na terra, e procurar alcançar o descanso do espírito, que é dado por Deus.

Para quem não conhece este caminho, é que Jesus veio ao mundo, em formato de homem terreno, e deixou bem claro, no Evangelho, como seguir até o fim, para chegar ao lugar de onde saiu e voltar para Deus.

A Escritura não é um livro enigmático ou incompreensível, mas ao contrário, muito claro em todos os detalhes, para que o homem possa nortear-se no rumo certo, guiado por Jesus, e voltar para o lugar de onde veio, a casa do Criador, e onde mora Jesus.

Nos principais episódios de minha vida, em vários sentidos, vai ser acompanhado de um poema, que fala a respeito.

Todas as palavras usadas nos poemas, não são fantasias, mas um fato, os poemas revelam detalhes dos acontecimentos, que também são fatos.

Minha crônica vai falar do meu passado e do presente, e posso afirmar que tudo será verdadeiro, porque não me envergonho, nem tenho medo de confessar meus atos, nem perante os homens e nem perante Deus, em quem eu acredito e respeito, os meus próprios atos falam disso.

Se em muitas palavras, estiver acusando outros, parentes ou não, quero dizer que nesta crônica não acuso ninguém, apenas estou revelando os acontecimentos, em cujos acontecimentos, muitas vezes fui vitima, mas nem por isso, pretendo nesta revelação de minha vida, fazer acusações.

Voltando a falar dos poemas, acompanhando a página anterior fica um poema que fala muito deste local, em que passei dois anos, começando a viver sentindo, os problemas que começaram a surgir em minha vida, e ficando gravado para sempre, em que estou escrevendo aquilo que recordo perfeitamente, que está como uma fita gravada, em minha memória, em que passo a revelar, como se estivesse vivendo hoje, e com todos os detalhes, que deixo de escrever, para que não dê a impressão de ser exagero.

Em 1921, meu pai veio para Lins, comprando uma chácara perto do matadouro, e a estrada de ferro, dividia a chácara pelo meio.

Meu pai fez uma casa grande de madeira, há cem metros para cima da linha do trem, e a família toda passou a trabalhar como se fosse um formigueiro, e a situação melhorou muito para a família em todos os sentidos, minha mãe estava sempre fazendo tratamento de saúde, e nossa chácara ficava a dois quilômetros da cidade.

Esqueci logo da natureza do sertão que me encantava, porque um novo encanto me surgiu em minha mente, ver a beira da linha os trens de carga, e os de passageiros, com a locomotiva, e cinco vagaõzinhos a cores, eram dois trens de passageiros durante o dia, e um trem misto que passava a noite, e para mim surgiu um novo encanto, além do comboio que já era admirável, ainda a noite a Maria fumaça soltando aquelas tochas de faíscas, que parecia fogos de artifícios, justamente este trem da noite que chegava para Lins, a linha fazia uma curva dentro de nossa chácara e, era subida forte também, então a Maria fumaça que subia a todo vapor, levantava muitos metros da chaminé, aquela massa de fagulhas que ia esparramando, como se fosse ouro em pó na escuridão das noites escuras, um verdadeiro espetáculo, que se repetia todos os dias, nas horas certas, e assim eu e meus irmãos, quando ouvíamos o bufar da pequena locomotiva que vinha subindo, corríamos para o quintal, assistindo o espetáculo diário, e que não cansávamos de assistir, e era justamente neste local, que o maquinista dava aquele apito de sinal de chegada, que seria obrigatório, e tudo se tornava um espetáculo, que assistíamos de camarote, trepados na cerca do curral, que meu pai tinha feito para prender as vacas, como já disse, tudo melhorou porque então, já tínhamos vacas de leite o suficiente para o consumo da família.

Meu pai que foi administrador de fazendas por muitos anos, entendendo muito sobre tudo, se tornou um empreiteiro de obras, trabalhando em formações de sede de fazendas de café, que era o cultivo de ouro verde, que se desenvolvia na região, onde passou a ganhar dinheiro, trabalhando sem férias e sem feriados, porque não vencia as obras que pegava, trabalhando com meus irmãos, e muitos empregados.

De 1921 a 1924, esses três anos, a vida de minha família tomou outro aspecto, e outro rumo, meu pai trabalhando e lutando, numa vida estafante, mas num entusiasmo de guerreiro vencer a qualquer custo, a custo de trabalho dia e noite, porque outro recurso não havia, e assim a família toda era um formigueiro, cada um com sua obrigação, os mais velhos trabalhando, os mais novos indo para a escola para estudar, e tudo se movimentava sob o comando de meus pais, que eram os primeiros a se levantar as 4:00 hs da madrugada, e prolongar o dia até a noite, não havia férias e nem feriado, porque meu pai ganhando dinheiro suficiente para a manutenção, e sobrando o sonho era de formar uma fazenda, que se realizou em oito anos, naquele trabalho que não teve trégua enquanto o sonho não foi realizado.

O episódio de lutas e proezas, neste período, foram longos mas como a crônica é minha volto a falar de mim.

Neste período a vida para mim foi um tanto monótona, embora o meu estado de saúde, era sempre o mesmo, as desidratações, acompanhado de dores de cabeça, em que eu me sentia muito mal, sem saber explicar o que tinha, já ia ao medico para consultas, mas nunca houve um diagnostico que acertasse, com um medicamento.

Os medicamentos eram manipulados de extratos fluidos, que nunca tiveram efeitos positivos, remedinhos para remediar, e como eu comia pouco por causa do distúrbio gástrico, e havendo leite suficiente para toda a família, eu tomava muito leite, porque gostava, e era assim meu alimento básico, era magrelo, mas com muita disposição, aos sete anos, o dia todo, procurava ajudar meus irmãos nas suas obrigações, e isto eu fazia voluntariamente, e com muito entusiasmo, desde minha infância, nunca tive preguiça, sempre muita vontade de trabalhar.

Dos seis aos sete anos, eu fazia companhia para minha mãe ir a cidade tomar injeções, e isso me fazia sentir útil, e então queria tomar parte nos serviços dos meus irmãos, ajudando a tratar dos animais, e em tudo eu já tinha noção do que estava fazendo, vendo tudo o que se passava em casa, e creio que nesta idade, eu já seguia entre as linhas paralelas, conforme já disse em outras páginas, e que a linha direita, o Senhor, já me guiava, porque minha mente, já era uma máquina em funcionamento, era um menino retraído e humilde, que nunca brigava com meus irmãos.

Nunca ganhei um presente, porque naquele tempo, os pobres não tinham dinheiro para isso, e aprendendo com meu irmão, eu fazia o meu automóvel, uma tabuinha recortada no formato, rodelas de sabugo de milho como rodas e pneus, que deixava o rastro de derrapante na areia, e também de rodas de carretéis de linha, minha mãe costurava muito, e nos dava os carretéis, isto era um carro de luxo, valia mais, o dinheiro usado em nossos negócios, eram cacos de louças, de pratos ou xícaras, as que tinham desenhos a cores, e o valor de cada um era o que tinha mais cores, e transação era honesta.

Meu pai dividiu a chácara, em áreas especificadas. Em pasto para as vacas, em cereais, em pomar, e até jardins, em toda frente da casa, plantas comum, mas numa variedade, que na ocasião das flores, a casa tinha um aspecto, que muitos que nos visitava, comentavam pelo capricho de meus pais.

Havia abundância de frutas, como mamão, abacaxi, banana, maracujá. Também havia batata doce, mandioca, e outras plantações, havia um abastecimento abundante para a família, e se repartia com amigos e parentes, porque meus pais não eram mesquinhos, ao contrario, gostavam de fazer amigos repartindo do que produziam, sendo que poderia vender o excesso, mas tinham prazer em repartir tudo o que produzia com abundância, e ainda escolhendo o melhor para presentear.

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