Minha Crônica – Ulysses Melges – 1971

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Ulysses Melges – 1971

Em Jaú, neste estado, em 19 de julho de 1916, nasceu uma criança, e a parteira que servia a parturiente disse: “é um homem”, e com o poder de Deus este nome no decorrer desses 55 anos (1971), prevalece, porque naquele momento nasceu um menino com cara de homem, e não com cara de pão.

Em primeiro, quero frisar que nesta minha crônica, que é uma história com h, e não com e, é um resumo verídico, em que eu não pretendo aparecer como super-homem, ou como inferior a outros, quero apenas esclarecer, como um homem iluminado pela luz de Deus, pode se dirigir no meio de uma avalanche de corrupções, sem ser levado de arrastão.

Sou bem inferior a maioria, na situação financeira, não consegui riquezas, em saúde, tenho muito pouco, em cultura eu nunca tive oportunidade de frequentar colégios, com isso fica evidente que sou bem minúsculo entre os outros.

Mas, começando minha história, quando nasci, julgo ter recebido de Deus, a maior riqueza das riquezas, uma fagulha de sua luz.

Creiam se quiserem.

Nunca briguei com outro menino, quando criança, e nunca briguei com outro homem, depois de adulto.

Nunca bebi bebida alcoólica, nunca fumei, não joguei nem por esporte, jamais entrei em um campo de futebol, ou baile, ou folia de carnaval, nunca frequentei bares, nunca amanheci uma noite na rua, mais detalhes seria exagero.

Esclareço que não sou anormal, débil mental, ou atrofiado, sou tão normal, físico e mental, como outro qualquer, sujeito aos mesmos impulsos, ou paixões.

Sofri em criança de distúrbio intestinal e enxaquecas, que permanece até hoje, minha magreza era tal, que minha mãe tinha pena de me bater quando precisava, mas poucas vezes apanhei, não só por isso, mas, porque não dava motivos.

Nunca ganhei ou possui um brinquedo, alem do que foram feitos por mim mesmo, desde cedo, aprendi a fazer tudo que precisava, com carretéis de linha vazio, e um pedaço da taboa, fazia meus próprios automóveis e, ate para fazer presente a outros.

Aos 8 anos, cessou minha infância, meu pai deu-me uma série de obrigações, que levantando as 4:00 hs da madrugada, teria que pegar um cavalo, e fazer serviços diversos até as 6:00 hs da tarde, inclusive aos domingos, que meu pai que sabia fazer de tudo, fazia trabalharmos para aprender e, hoje eu agradeço tudo que me ensinou, éramos em onze irmãos, e eu sou o nono.

Meu pai era severo ao extremo, ao ponto de mandar nós mesmos buscar o chicote para apanhar, mas depois dos 12 anos nunca mais apanhei, ao contrário, por vezes, recebia elogios.

Aos 17 anos, minha mãe faleceu, e naquele dia pareceu-me que o mundo desabou para mim, meu pai logo depois se casou com uma tia, irmã de minha mãe, e daí por diante, tudo se tornou pior. Deixei minhas obrigações leves, passando para serviços pesados, muitas vezes, além das minhas forças, e sofri durante sete anos, até que meu pai faleceu, e os horrores de uma madrasta, que se eu fosse citar os detalhes, seria humilhante e incrível, e faltaria espaço.

A única coisa que agradeço a minha madrasta, é ter-me ensinado algumas letras, que me dava uma aula por dia, das 7:00 – 9:00 hs da manhã, durante um ano, e isso foi toda escola que eu tive em minha vida.

Mais uma vez agradecendo aquela luz, que sempre me guiou e que nunca me faltou vontade para aprender tudo, sempre fazendo qualquer coisa como se já soubesse, fazendo mesmo aquilo que nunca vi igual, esse é um ponto principal do meu feitio, fazer tudo a minha maneira, sem imitar a ninguém, concebo em minha mente tudo o que fazer, sem importar com a censura dos outros.

Aos 19 anos de idade, meu pai faleceu, e daí começou uma nova vida, com maiores lutas, até esta época fui criado no sitio, sempre isolado de tudo, e de todos, apenas no convívio da família.

Vim para a cidade, sem as mínimas condições, sem dinheiro, sem roupas, sem profissão, sem cultura, e sem conhecimentos de nada, apenas com alguns princípios que meu pai ensinou.

Fui para São Paulo com um parente, que mudou para lá naquela ocasião, e não conseguindo serviço, voltei depois de alguns meses, daí por diante, enfrentei as maiores dificuldades, sem ter o apoio de ninguém, porque nunca procurei, sempre preferi resolver meus problemas, sem incomodar a ninguém porque meu modo de agir sempre foi diferente dos demais.

Desde que me senti homem, sempre pensei em me casar, ter minha casa, viver minha própria vida, vivia em um quarto sozinho, eu fazia a limpeza, pregava botões em minhas roupas, em certas ocasiões, cheguei a lavar e passar até as roupas.

Pensando em casar, nunca namorei uma moça com o fim de apenas passar o tempo, mas procurando encontrar aquela que estivesse enquadrada dentro do meu tipo preferido com todos os requisitos, sempre fui minucioso na escolha, baseando-me, que o casamento é para toda a vida, e não temporário.

Depois de vários namoros passageiros, por não encontrar o meu tipo predileto, uma tarde dando minha volta costumeira pelo jardim, defrontei com uma morena com um cabelo ondulado que era um dos itens do meu tipo, e logo firmando os olhos vi tudo que existia em minha mente, tipo físico, bastava agora desvendar o íntimo.

Depois de encontrarmos em algumas voltas, vi que estava sendo correspondido, não perdi mais tempo, foi como alguém que andava em busca de um tesouro, e viu algo brilhar em sua frente, e tratou logo de apanhar.

Depois de seis meses de namoro, sem ter uma briga sequer, ela iria embora para São Paulo, e como eu não tinha a mínima possibilidade de me casar, achei injusto tomar seu tempo sem lhe dar uma certeza justamente por querer bem, e que não achei mal, tomando seu tempo, e sem briga, justificando a verdade, desisti, contrariando meu próprio íntimo, e meu sonho desabou.

Passou dois anos, sem termos noticias, um do outro, e eu não mais procurava encontrar o que desejava, porque tinha encontrado sem poder obter, me considerava o homem mais fracassado deste mundo.

Embora sem nada grave e contagioso, que considero o poder de Deus, minha enfermidade sempre foi permanente, e desta época em diante agravava-se mais.

Decorrido mais ou menos dois anos, fui obrigado ir a São Paulo, onde estive um mês em tratamento no Instituto Hidroterápico e aí, com ordem divina talvez, nos encontramos e creio que, de ambos as partes, naquele momento, o pensamento foi um só, um agarrar o outro, para que não fugisse mais.

E, assim com o poder de Deus, foi concretizada aquela amizade iniciada tempos passados, mas que não foi esquecida.

Mas, as dificuldades continuavam as mesmas para mim, profissão indefinida, sem dinheiro, e doente nessa época, vivia e trabalhava com meu irmão Edson, que me amparou em tempo difícil para mim.

E daí por diante, com um entusiasmo, de ter encontrado o que considerava perdido, esqueci toda adversidade que me envolvia, e pensei apenas no futuro, não sei bem se isso seria fé, mas confiava em Deus, que o fracasso teria fim, e depois de transcorrer quatro anos de muita dificuldade, de uma hora para outra, surgiu a possibilidade que me era impossível, e casamos no espaço de quatro meses, e agora transcorrido 24 anos de lutas e trabalhos, mas sem nem uma briga, por incrível que pareça, posso afirmar que é verdade.

Fica evidente em minha história que é preferível uma felicidade real com lutas e trabalhos, do que uma falsa felicidade, adornada de mera  ilusões.

A felicidade, não consiste em dinheiro, na posição social, nem em falsas ilusões, mas em fé em Deus, para que haja uma amizade concreta, sem interesses e sem enganos.

Com experiências próprias, posso afirmar que, com resignação baseada na fé, a qual é a credencial para chegarmos a Deus, poderemos vencer todas as batalhas, quando Ele está conosco.

Se fosse descrever, com detalhes toda minha vida, daria muitas páginas, e como romanos só se escreve de pessoas nobres, e não de humildes, deixo esta por terminada, usando aquele velho provérbio, que não existe vitória sem batalha.

Por isso creio que é preferível, uma vida de batalhas com vitória final, do que uma vida de glórias, terminada com fracasso, que traz o desespero.

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