Comida de onça

Encontrei Thomas na fila do banco e percebi pela sua expressão ele estava muito preocupado. Como ali ele não diria nada mesmo, aguardei-o fazer seus pagamentos, para poder bater um papo e tentar descobrir o que estava acontecendo. Isso somente quarenta e cinco minutos de espera, a beira de um belíssimo café expresso com açúcar mascavo. Disse Thomas que até que enfim haviam aberto um café expresso na cidade, mas o que me contou me deixou perplexo.

Segundo Thomas, uma empresa que estava fazendo treinamento no seu hotel fazenda, já a cerca de noventa dias, havia perdido um gerente no dia anterior, e, apesar dos esforços da polícia rodoviária, militar, dos bombeiros e da Polícia do IBAMA (polícia florestal), o tal gerente – tido pelos colega como intransigente – não havia ainda sido encontrado, e segundo as suspeitas da equipe do Thomas, nunca o seria.

É claro que fiquei muito intrigado e a muito custo consegui descobrir a história toda, inclusive a tese deles. O treinamento no qual os seus clientes estavam inscritos destinava a conseguir um aumento do esforço operacional dos funcionários, desde o presidente – pessoa muito influente e fruto da junção de duas, das famílias mais poderosas da área açucareira do estado – até os seus fiscais de campo, escolhidos dentre os três mil e quinhentos funcionários ativos; e, dentre as ferramentas utilizadas pelo professor para o treinamento (conceitual, como tipificou Thomas) – um descendente de espanhóis com grande experiência nas lides do treinamento, adquirida e vivenciada em grandes empresas nacionais – destacava-se a utilização de muita linguagem figurada, símbolos e metáforas que terminaram por auxiliar a ocorrência dos fatos; e o desfecho radical que se antevê, pelo menos na tese do Thomas e seus colaboradores, qual seja: a crença do inusitado gerente, de que tudo seriam apenas metáforas.

Devo destacar que o seu hotel fazenda está inserido em de uma gigantesca área de mata virgem tipificada pelos especialistas como resíduos de mata atlântica, ainda em estado semi selvagem, onde proliferam aves e animais silvestres, dentre eles algumas famílias – pequenas – de lobos guarás, cachorros do mato, pelo menos uma de onça parda, e outros de pequeno porte; sendo que ouvi do Thomas que não muito tempo antes uma destas onças havia atacado um garrote, uma vaca, um cavalo, e perseguido um camponês que ao desempenhar seus trabalhos na lida diária – trabalhava com trator arando um pequeno pasto para o plantio do milho – não percebeu, ao descer do trator para buscar o corote d’água, que a onça o observava de perto, quando quase se tornou almoço da sabida.

Contou-me Thomas que uma das dinâmicas utilizadas pelo professor espanhol objetiva fomentar a confiança interpessoal dentre seus treinandos, para que o espírito de equipe possa se desenvolver mais livre e solto e facilitar as correntes de comunicação dentro da empresa, quando, então, após a discussão dos conceitos inerentes ao mote do módulo, formam-se duplas em que um participante é vendado – com aquela venda preta que podemos ver nos filmes de pirata – e é guiado pelo outro, de um local para outro, passando por algumas barreiras, superando alguns obstáculos, onde a principal recomendação para o guiado é que confie no seu companheiro, o qual certamente vai levá-lo ao ponto final, ao objetivo definido, com bom termo e segurança; enquanto que para o guia é recomendado que haja com extrema cautela, pois está cuidando, naquele caso, do destino de uma vida, sendo gastos cerca de quarenta e cinco minutos neste exercício; após o que procedem as conclusões e experiências em sala de aula, fazendo uma transposição para o dia a dia empresarial.

Eu, pessoalmente, achei muito estranha essa situação, mas como nada entendo de treinamento – certamente minha escola de odontologia não se preocupou em me ensinar assuntos relacionados com a vida empresarial – não posso opinar se é ou não uma boa forma de fomentar a confiança entre as pessoas; mas acho que seria uma experiência interessante assistir mais de vinte duplas de treinandos movimentando-se por uma grande área a beira de uma floresta genuína, um sendo guiado pelo outro.

Não sei não, mas pelo que sei esta história toda, de um – vendado – ser guiado pelo outro, tem origem muito antiga, quem sabe nos antigos costumes de diversas escolas iniciáticas da antiguidade, e que é uma metáfora muito interessante.

Há muito tempo acredito que o poder das metáforas é muito grande, pois sei, pelas minhas incursões pela história do mundo e do estudo da Bíblia Sagrada, que elas foram utilizadas ao longo da civilização de forma produtiva para explicar e transmitir conceitos que em um determinado momento são de difícil entendimento ao ser humano; mas acredito também que elas tenham sido utilizadas tão intensamente neste treinamento, que já perdurava mais de quarenta e cinco dias; que terminou por auxiliar a catástrofe que não estavam antevendo.

Não sei se somente isto auxiliou o acontecido, ou se o fato daquele gerente ser uma pessoa irascível, taciturna e totalmente autoritário – recentemente contratado para auxiliar o processo de mudança no setor de plantio da cana de açúcar – também tenha auxiliado a ocorrência; mas, voltando ao poder das metáforas, é claro que todos se lembram daquela inocente brincadeira dos dias de festa junina, em que no momento da quadrilha, o “cantador” informa os problemas que vão acontecendo no decorrer da jornada dos “caipiras” até a festa do casamento, tais como: “Cuidado! Vem a chuva!”; “Voltem! A ponte caiu!”; “Perigo! Olha a cobra!”; sempre acompanhados do refrão: “é mentira”, e todos retornando aos seus lugares, alegres e satisfeitos!

Como aquele gerente, apesar de ser uma pessoa difícil, tinha como passatempo as modas de viola, era cantador, e era o encarregado de montar as festas juninas da sua comunidade – pequenina e original cidadela perto da Vila dos Confins – já há mais de dez anos; acho que ele se encantou com as metáforas do seminário e achou que quando seu companheiro gritou, era mais um mote para alguma pequena atividade.

Thomas me disse que, quando a onça chegou perto dele e bafejou em seu rosto, ele ainda estava sorrindo e que, apesar de sertanejo de nascimento, ele não sentiu o cheiro do perigo, nem percebeu que os passos e pisadas – descontrolados – dos demais companheiros – guias e guiados – que participavam da dinâmica, eram gerados pelo pavor da “gigante” – como já é conhecida aquela onça na região – que ali estava em carne e ossos, aliás, em fome e sede!

Pois bem, alguém gritou: “olha a onça”, e aquele experimentado cantador de quadrilha apenas pensou: isto é comigo mesmo, e entrou na dança!

A realidade é que faz sete dias que o treinamento terminou!

O professor retornou para sua cidade, fulo e frustrado – também pudera! A diretoria da empresa acha que ele tinha montado tão bem a atividade que até contratou a onça! E agora, nem querem saber de pagar o restante dos cinquenta por cento do seu contrato!

A empresa, aos poucos retorna a sua vida normal, pessoas vão se esquecendo do assunto, mas agora, a palavra treinamento é tabu, e o departamento de treinamento, junto com a assistente social, foram sumariamente todos demitidos.

Da parte dos funcionários, alguns ainda acreditam que foi realmente uma fatalidade o que aconteceu, porém, alguns outros opinam que foi um sinal de Deus, para mostrar que os gerentes não podem ser tão autoritários – é claro que ninguém acredita nisso, pois todos sabem que o Nosso Deus não se intromete nos problemas mundanos, e outros opinam que o guia do desaparecido, encontrado no píncaro do primeiro jequitibá rosa que encontrou – lembram-se daquele famoso jequitibá que dizem ser um pai das árvores brasileiras, com seus mais de três mil anos e cento e dezenas de metros de altura – é culpado de não ter esclarecido que aquele grito não era uma metáfora, porém, a verdade é que o gerente ainda não foi encontrado, e olhem que por três dias seguidos foram movimentados, em conjunto – tal qual um verdadeiro treinamento de sobrevivência, usando os conceitos difundidos pelo professor espanhol, e relativos a criatividade, planejamento, definição de prioridades, comunicação, percepção, espírito de equipe – quase trezentas pessoas para procurar o tal gerente.

O interessante é que tudo acabou sendo um lindo exercício de solidariedade, pois até alguns colegas da empresa anterior, que ficaram satisfeitos com a perda do gerente – quando da sua demissão – se prontificaram a fazer parte do batalhão de busca, quando encontraram o covil da malfadada, e apenas um resto de ossos e tecidos – coincidentemente da mesma coloração avermelhada, semelhante a camisa que o gerente usava no fatídico dia do encerramento do treinamento.

Minha conclusão é que Thomas ficou abalado com o assunto, pois me contou tudo isto em apenas quinze minutos, e, se não fora minha excelente capacidade de audição e entendimento, não teria como relatar o ocorrido, pois de lá para cá o Thomas se recusa a falar nisso. Dizem até que ele recusou uma boa grana para contar o seu caso no programa do Gatinho, e que tem se negado a atender os telefonemas da Glória Maria, com quem tem bom relacionamento desde aquele dia em que, lá em Londres, Thomas e seu sócio a encontraram ao retornar de Londres para São Paulo, após adquirirem a fazenda de um Emir árabe, na qual terminaram por instalar o hotel fazenda.

Ah! E quanto ao hotel fazenda? Pois bem, vai de “vento em popa”. Agora todos querem conhecer onde é que o gerente sumiu!

E quanto a diretoria da empresa que solicitou o treinamento, achou que até que aquela foi uma interessante alternativa de desligamento, mas é claro que não posso citar seu nome.

Coitados dos familiares! Ainda estão confusos e não sabem se pedem a pensão previdenciária dele para o INSS, ou se entram com uma ação contra o IBAMA, mas isto será rapidamente decidido, pois contrataram ontem um renomado advogado conservador e cauteloso, que certamente vai pedir ambos os benefícios.

E o encarregado do Departamento de Pessoal, então, está muito confuso, pois já consultou o sindicato de classe que não conseguiu enquadrar o caso de desligamento do guiado que virou jantar de onça, pois certamente ele não foi desligado nem por justa, nem injusta causa, sendo certo que não pediu demissão nem foi demitido, e os formulários legais não tem previsão para este tipo de demissão (comido pela onça), e a Caixa Econômica Federal, por seu turno, recusa-se a liberar os depósitos do Fundo de Garantia para a família, pois o caso não está no manual de normas internas!.

P.S. Encontrei novamente o Thomas na mesma fila do mesmo banco, de onde fomos novamente para o delicioso café que fica logo no quarteirão abaixo, e conversei com um Thomas aliviado e alegre, pois o gerente, após muitas investigações, pode muito bem estar vivo ainda. Segundo a polícia técnica, o tecido encontrado não é igual ao da camisa que ele vestia – a amostra encontrada foi comparada com o restante que havia em sua residência, pois sua mulher, costureira de profissão, sempre guarda pequenos pedaços de pano para cerzimento – e o médico patologista logo que chegou ao covil da onça para coletar os restos de ossos, disse indignado que não entendia como as pessoas estavam confundindo ossos do fêmur de um eqüino, com ossos humanos. Ficou tão indignado que foi embora, de volta para o seu Instituto em Campinas sem se despedir de ninguém!

Agora a polícia está investigando em outras áreas, pois dizem que a mulher do gerente é tão brava, que ele pode muito bem ter se aproveitado do ocorrido para fugir de casa!

Chii! Como o Thomas não lembrou que já sumiu um escocês há cerca de dez meses, quando a onça havia aparecido pela primeira vez?

Walmir da Rocha Melges – Publicado originalmente em 15 de dezembro de 2005 com o título de “Procura-se!” e sob o pseudônimo de Thomaz Nigel Melchior

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