Carta à Cláudia – O Corretor

Olá Cláudia.

Eu ia lhe escrever nesta quarta feira, pois estava muito preocupado com um assunto.
Imagine que o Grisham (John) preparou a história toda, e de repente, deixou o Joel Backman sozinho na velha Itália, sob os cuidados do letal Luigi, residindo em sórdidos pardieiros nos primeiros meses, enquanto lhe impingiam um péssimo professor de italiano; e o pior é que o Joel não estava percebendo que tudo era apenas uma armada para lhe tirar a vida de forma indireta.

Como qualquer outro ser humano, fiquei preocupado com a situação, mas não via como eu pudesse avisar o Joel daquilo que eu estava vendo; de forma tão clara, que já achava que ele estava enferrujado, que após passar seis anos da sua vida na prisão, em cela confinada, já tinha esquecido os princípios da sobrevivência no mundo aqui fora, fruto do seu relacionamento com os políticos e com os grandes empresários que sempre compravam seus serviços especializados.

É claro que eu estava então sob os efeitos da nossa qualidade, inerente, de prestar auxilio e orientação aos que julgamos serem necessitados; e como não tinha encontrado uma fórmula para avisar o Joel, decidi recorrer a você, escritora já experimentada, sobre como eu deveria proceder para passar tal informação. De qualquer forma, quem sabe no término desta, poderá dar-me uma orientação segura, pois poderão acontecer outros casos semelhantes, e eu gostaria de ter uma solução pronta para o caso.

Acho até que esta história de solução pronta para o caso é mais uma mania de querer antecipar tudo, de minimizar riscos e efeitos, de diminuir dores, de querer que os demais não sofram; mas o que posso fazer com isto, já que esta é uma característica minha? Ainda bem que não lhe escrevi antes, pois, já na quinta feira de noite eu percebi – minha intuição sempre me auxiliar nestes casos – que o Joel já estava maquinando algo, pois acabou conseguindo contato com seu filho – advogado como ele – com o qual fazia sete anos que não conversava, e o seu filho, mesmo correndo o risco de não ser compreendido pela família, decidiu auxilia-lo; registrando assim uma boa índole e que apesar do pai ter sido relapso em suas responsabilidades familiares – movido apenas pela ânsia do seu serviço; pelo menos Joel assim o diz; muito embora eu o creia que tenham existido mulheres diversas, de múltiplas idades, nomeio da história – prevaleceu o amor paternal; quem sabe, ensinado aos filhos pela mãe que já estava, mercê dos anos e das doenças, em algum local em cadeira de rodas.

Acho esta situação muito estranha – a dos americanos – pois não consigo atinar com a ideia de deixarmos nossos velhinhos mercê do destino, em casas de socorro ou auxílio, ou asilos; não sei se por instinto próprio, ou por ter visto meus pais cuidarem dos seus; mas a realidade é que quando vejo as famílias deixando os seus de lado, sempre fico abismado, por não compreender esta faceta do ser humano – outras também; porém estas machucam os sentimentos.

Ainda bem que Neal – será que é Noel? – é dos meus, e então tratou de cuidar do pai, que então teve o suporte necessário para novamente dar uma reviravolta na sua vida.

Bem, como percebi que algo estava mudando, decidi mudar o curso da carta consulta que iria lhe enviar; mas, como a agenda não me permitiu, as coisas evoluíram neste ínterim, e eu fui acompanhando aos poucos o curso da história do Joel, que demonstrou estar ainda bem aceso quanto ao planejamento estratégico aplicado nos meios empresariais e políticos. Até acho que para um advogado ele foi muito longe – não querendo diminuir, de forma alguma esta classe de profissionais – pois a desenvoltura que demonstrou em conviver com os meandros dos serviços de informação; com a própria CIA, que havia montado a trama toda, conseguindo desvencilhar-se com eficiência até do Governo Americano, é digna de nota, e revela uma inteligência superior a média.

Talvez seja por isto que tenha sido o mentor, diretor geral, e principal proprietário de uma das maiores empresas de advocacia política de Washington; e olhe que não vejo tudo isto somente com bons olhos não, pois sou de opinião que ele poderia ter alavancado a vida de muita gente, se houvesse aplicado seus conhecimentos e expertise para obras de cunho social. Certamente ganharia um dos Oscar de benfeitor da humanidade; porém, decidiu, exemplo de muitos, usar seus dotes de mente privilegiada, apenas para seus interesses econômicos. Este fato não me deixa desapontado, mas sou obrigado a desaprovar o seu comportamento, a sua forma de viver; principalmente quando decide vender segredos para outros países que não o seu, violando assim o dever de respeito pela pátria; porém, ser humano que o sou, acabei ficando condoído da sua sorte ao ver que estavam tramando a sua morte.

A pergunta então, prezada Cláudia é sobre como devo proceder, quando leio um livro e constato que as pessoas estão sendo enganadas. Será que posso influenciar a história e alterar o curso dos acontecimentos? Fiquei preocupado com o Joel, como já disse, e lembro-me que quando criança; fiquei muito preocupado com a possibilidade dos três porquinhos serem comidos pelo lobo mau, mas como a história era muito pequena, logo cheguei ao fim e vi que tinham chegado a bom termo, e que os porquinhos tinham sobrevivido.

Existe então alguma forma de influenciarmos o curso da história, podemos influenciar, será que o “dono” da história vai compreender nossa preocupação?

Ah! Esqueci de dizer que tudo isto começou da leitura do último livro do John Grisham, editado pela Rocco, chamado “O Corretor”, não o ortográfico.

Autor: Walmir da Rocha Melges

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