Calvin (a criança e os adultos)

Walmir da Rocha Melges – Publicado originalmente em 22 de fevereiro de 2008

Olhando por detrás dos meus cinquenta e oito anos de idade (hoje 63) percebo que já assisti, ri, chorei, recomendei e solidarizei com muitos pais que lutaram no decorrer da infantilidade de seus filhotes alguns buscando atendimento com amigos, outros com padres e pastores, outros com psicólogos; da mesma forma que psicólogos procurando outros psicólogos procurando outros psicólogos; todos sempre tendo como mote seus filhotes ou os filhotes dos outros.

É claro que sou consciente de que ninguém é o pai da matéria e não têm a receita mágica para solucionar os pequenos problemas criados pelas gigantescas mentes dos pequenos filhotes; aliás, eu achava que ninguém tinha a receita, até que ao ler pela quarta ou quinta vez a mesma revista em quadrinhos, adquirida por mim há cerca de 30 anos, vislumbrei nela a solução para estes males.

Costumo brincar com os amigos que infelizmente os bebês não chegam ao mundo, devidamente acompanhados de manuais técnicos. Por outro lado, infelizmente os novos e babados pais e mães – também elas não podem ficar de fora – têm o péssimo costume de não ouvir as mães, tias, irmãos mais velhas, vizinha, amigas, e primas, que logo ao nascer de um bebê, percebem que devem revestir-se do papel a conselheiras, exatamente pela não existência do manual do bebê.

E foi assim, relendo novamente a revista Algo Babando debaixo da cama, de autoria do americano Bill Waterson, que conta a vida de uma pacata família americana composta do pai e mãe – destes não sabemos os nomes – e de seu lindo filho com cerca de 7 anos; o qual responde pelo nome Calvim e é o legítimo e orgulhoso proprietário de um lindo tigre de pelúcia, que quando está de bom humor atende pelo nome de Harold.

Digo quando está de bom humor, não por que ele seja mau, mas apenas por que as suas brincadeiras normalmente tendem para o sarcasmo e o laconismo; mas tenho a opinião de que é a melhor companhia daquele inquieto garoto de mente fértil e farta coleção de baterias alcalinas da melhor qualidade.

Acho que esta leitura – aliás as demais edições dele também são boas – é o melhor manual para pais e mães aflitos, pois, quadrinho por quadrinho, desenrola-se um verdadeiro treinamento para os pobres mentores e mantenedores das crianças agitadas, orientando todos – até aos psicólogos e pediatras – a melhor forma de interagir com os pestinhas, digo lindinhos – também lindinhas – que tanto atazanam a vida nos mais velhos e depois de tudo ainda nos perguntam, com cândidos olhos e um sorriso zombeteiro que nos cativa: o que foi que eu fiz?

Bem, como somos apaixonados pela gurizada, somente nos resta cuidar bem deles, o que pode ser feito com mais profissionalismo, maestria e sossego, decorando, vorazmente as pequenas historietas que percorrem 127 páginas, ao final das quais, certamente iremos ficar com vontade de dar um prêmio, ou para o autor, ou para o casal que o motivou.

Já tive uma primeira edição, não me lembro a data, mas ela sumiu e hoje somente tenho uma segunda edição datada de 1988, a qual não vou emprestar, senão, desaparece como a primeira.

Por outro lado, é encantador ver o comportamento do menino, sempre alegre e vivaz, zombeteiro e criativo, incansável e inocente – tentando tirar os pais do sério – mas o mais importante é analisarmos o seu relacionamento com o tigre de pelúcia, que quando os adultos não estão por perto, toma a sua vida verdadeira e brinca alegremente – digo sarcasticamente – com o menino; ora auxiliando-o, ora tirando-o do sério.

O interessante é que eles se completam e vivem loucas e maravilhosas aventuras no país da pizza e do macarrão; alias da pipa e do vizinho resmungão. Sua criatividade é impressionante e a segurança que o pelúcia transmite ao garoto é gigantesca, importante ao ponto de auxiliar a atravessar os anos de adulto com facilidade e sem maiores sobressaltos. Certamente vai fazer com que ele entenda o que o Raul Seixas queria dizer quando cantou que havia perdido o medo da chuva, quando deu o conselho de tente outra vez, e quando seu professor de lógica o mandar ler Sócrates e Platão já vai saber que não é o jogador de futebol, nem o prato grande.

Algumas das suas pequenas historietas são tão poderosas no campo das metáforas, que uma delas, versando sobre o ato de decidir ou se omitir é utilizada em treinamentos por grandes consultores corporativos, demonstrando pela sua lógica contundente que em cada escolha que fazemos no dia-a-dia, segue-se nova necessidade de decisão, o que implica que nossa vida – por completo – é uma sequência de decisões e omissões, fechando com a moral de que devemos agir antes que a vida decida por nós.

A par de tudo isto nós podemos tirar muitas lições:

Algumas crianças têm a boa sorte de contar com o seu tigre de pelúcia, ou qualquer outro símbolo que o auxilie a atravessar esta grande e sombria fase da vida; outras não. É claro que este amuleto, esta muleta, não supre de forma alguma a segurança ou a presença familiar, sendo apenas complementar, pois o auxilia a entender muitas coisas que os pais desconhecem, ou preferem não discutir; e o importante é que a criança desenvolva seu senso crítico e possa ao longo dos anos ir fazendo suas adaptações, substituindo o tigre por outras metáforas, adaptadas as suas novas concepções, maturidade, realidades, e novos meios onde vive.

Quando isto ocorre, o homem está pronto, formado, apto a desenvolver com plenitude os seus direitos e deveres de cidadão em relação a si próprio, a sociedade, ao próximo e a Deus; porém, como nem tudo é perfeito na vida, surgem as aberrações, representadas por aqueles que crescidos na idade e no tamanho, continuam a comportar-se como os irados e geniosos garotos de anteontem, mas mesmo estes, devemos a bem da verdade, dividi-los em dois grupos especiais, o primeiro, reservados aos detentores de algum transtorno psíquico que os mantém na infantilidade, e outros, que mesmo chegando na fase adulta, decidem de caso pensado permanecer como pequeninos, usando da malícia do adulto para justificar seu comportamento; e em alguns dos casos, para metamorfosear-se seguindo os desvios que põem ser capitulados no âmbito das idiossincrasias humanas.

Um pode – e deve – ser tratado, auxiliado, amparado; o outro; deve ser prontamente combatido, pois ele se comporta, convenientemente, sempre de caso pensado, mercê da sua ética da conveniência, esquecendo-se até das boas práticas da moral e da ética.

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