A retórica, a pragmática e a realidade política

Vimos por vezes a razão ser sobrepujada pela conveniência, e isto ocorre desde que o mundo se tornou mundo e está ligado, de forma inexorável com a mentalidade do humano, não importa sua raça, credo, ascendência ou local de nascimento/desenvolvimento, e muitos já pagaram pela idiossincrasia criada por ela (ética da conveniência).

Esta crônica foi elaborada especialmente tendo em vista o que vejo acontecendo na cidade de Lins em todos os meus anos de assistente coerente, porém, poderá, em tese, servir para outras cidades e outras realidades também.

Diz os escritos antigos que Giordano (Filippo) Bruno de Nola nasceu em 1.548 na Itália e foi condenado e morto em 17.02.1600 pelos seus patrícios também padeceu deste mal (vítima da ética da conveniência imposto por um grupo social).

Giordano entrou para um mosteiro da Ordem Dominicana na idade de 12-15 anos e lá tornou-se doutor em Teologia recebendo uma farta e diversificada cultura em um momento da história onde existiam poucos com muitas oportunidades de desenvolvimento cultural e filosófico. Foi dedicado estudioso das correntes filosóficas antigas, teólogo, tendo sido pessoa dotada de grande sagacidade e raciocínio, o que o levou a desenvolver suas ideias próprias sobre o mundo, as quais contrapunham-se com Aristóteles, Copérnico e outros e lhe deu base para enunciar um novo formato sobre o universo.

Foi considerado como um subversivo, pois sua ideias contrapunham-se ao que pensavam os governantes e a própria igreja católica, ou seja contrariava os ideários aceitos, e, pela sua visão o universo não tem um ponto central certo, fixo, mas sim é infinito e composto por pequenos outros sistemas, como o sistema solar que ora conhecemos, hoje, com a consciência de que existem outros sistemas centrados em outros elementos estelares.

Se pensarmos que naquela época predominava o senso de que o sol era o centro do universo, e que pela teoria de Aristóteles, a igreja ensinava que as estrelas eram presas, fixas na oitava esfera além da terra, e que todas, equidistantes, se deslocavam juntas, em órbita ao redor da terra, assim como o sol e os sete planetas com as suas respectivas esferas (a terra era o centro do universo); se pensarmos que no dizer de Copérnico, o sol permanecia no centro do universo e a terra se movendo em sua própria órbita; então, qualquer outra teoria diferente destas (já abrigadas pelo poder temporal e religioso), tal teoria era revolucionária e subversiva, e isto era o que pensava Giordado nascido Filippo.

E assim ocorreu, pois Giordano continuava sua a busca da base de sua teoria nos antigos escritos que a igreja já havia abominado e determinado levar para a fogueira, apagando centenas de anos e obras de pensadores daquele passado, e o pouco que existia somente podia ser lido, estudado, dentro do maior sigilo e isolamento, como por exemplo os banheiros públicos fechados.

Como não poderia deixar de ser, alguém o denunciou como herege – por querer conhecer os escritos proscritos – e foi procurado na sua cela pela inquisição, tendo fugido pela janela instantes antes, e passando a partir de lá a levar uma vida nômade fora da sua terra natal, a Itália.
Conseguiu sobreviver utilizando os seus conhecimentos, principalmente a menmotécnica, a arte de desenvolver a memória, da qual era expert, e assim foi migrando entre as regiões, os reinos, participando de partes do aprendizado dos filhos dos senhores da terra (tutoria) e desenvolvendo melhor as suas práticas da retórica, e notabilizando-se como pensador culto e filósofo e passou a ser aceito e protegido pelos senhores das terras.
Para melhor entender o contexto devemos nos lembrar que aquela época os mais entendidos realizavam debates de retórica (a arte de comunicar de forma eficaz e persuasiva um assunto) durante os quais apresentavam suas ideias e teorias e tentavam convencer (persuadir) os ouvintes ou demais colegas, da assertividade que entendiam conter na sua teoria; e no final dos debates, normalmente mediados, era declarado o vencedor, ou seja aquele que havia apresentado mais razões racionais (pragmáticas) factíveis de conter a verdade.
Quiçá aqueles debates sejam os precursores dos atuais debates políticos, onde cada um discorre sobre as suas razões, tentando convencer os eleitores a votarem nele. Pelo menos é o mesmo conceito daquela retórica antiga!

A retórica era uma das três artes livres ensinadas nas universidades da época, junto com a gramática e a lógica e preenchiam os requisitos básicos para formar aqueles que que queriam convencer alguém para determinado fim, sendo certo haver uma ligação direta – na relação do convencimento – entre a mensagem a ser transmitida e o conteúdo (a razão) que a embasava, bem como com as conclusões (lógica) de onde se poderia chegar com os conceitos difundidos.

Podemos então concluir que a retórica do conhecimento, da informação, está calcada em bases reais, factíveis e comprováveis pela lógica. Assim, reputo que ela é pragmática (embute em si a coerência e a estrita significância do assunto discorrido); sendo certo que ela – retórica – se manifesta não somente na oratória, mas também na musica, na pintura e na publicidade (mormente nas comunicações).

O pragmatismo, que no dito popular já se entendeu também como prática, rápido, simples, provém de uma corrente doutrinária onde se pretende que o sentido de uma ideia deve corresponder, de forma exata (coerência) ao conjunto de ideias dos seus desdobramentos na prática.

Assim, temos que concluir que todo debate de retórica deve ser calcado em bases reais (fatos ocorridos ou que possam ocorrer), factíveis (implica na possibilidade de se agir, no fazer), e comprováveis pela lógica (o sentido central de uma ideia deve dar vida ao conjunto de ideias que se desdobrem na prática).

A meu ver, esta sim (este raciocínio sequencial) é a melhor forma de se entender e analizar as intenções e planos políticos, não somenre os gerais, mas também aqueles das pequenas manifestações quando o político diz: Pretendo FAZER, … Vou FAZER….

Nestes casos ele – candidato ou seu promotor – está proferindo a sua intenção, e as palavras que proferir compõe a sua retorica, restando ao ouvinte atento aferir se a intenção que ele manifesta naquela mensagem tem conteúdo (é passível de aplicação, se é coerente o que ele fala, se existe lógica nos seus argumentos sobre como fazer).

Mas, voltando a Giordano, que é o mote que nos interessa para exemplificar, vimos que objetivando conseguir determinada publicaçao proscrita pela igreja dominante, descobriu que Oxford havia sido o último local onde o manual havia sido visto e então, aproveitando-se de uma estada em Londres, pede auxílio ao Lorde Walsighan que o apresente ao Diretor da Escola John Durshill de Oxford, com o pretenso objetivo de duelar com aquele diretor sobre as teorias predominantes sobre a composição do universo.

Conseguiu seu intento e lá compareceu e duelou bravamente, apresentando e fundamentando as suas ideias, ao tempo em que o seu opositor nada refutava, mas apenas tergiversava, e para sua não surpresa, viu ao final os catedráticos que compunham o corpor de jurado do duelo determinar o seu diretor como o vencedor.

É claro que Giordano ficou descontente, mas profundo conhecedor das idiosincrasias humanas, percebeu que para aquele corpo de mestres, perante as suas centenas de alunos que os assistiam naquele momento, era conveniente que o mestre geral, o diretor, fosse declarado vencedor, mesmo que todos percebessem que ele havia apenas repetido as ideias de terceiros que havia abrigado, sem fundamentá-las.

Em seguida, Giordano recebeu alguns parabéns de forma reservada e tímida, daqueles que haviam entendido realmente o grande significado potencial das ideias que haviam ali ouvido de Giordano e ao mesm tempo manifestavam o seu pesar em que o debate houvesse tido tal desfecho.

E assim vimos nesta pequena crônica avultada, alguns componentes que nos acompanham na modernidade, neste período de intenso desenvolvimento da compreensão humana, mas que ainda permanece entre poucos, e os demais movidos apenas por aquilo que tenho há alguns anos chamado como Ética da Conveniência.

Vimos que uma platéia sedenta de conhecimentos, afinal de contas não estavam na escola da esquina, mas sim, em Oxford, acedeu, sem discutir com aqueles poucos que haviam participado do juri.

Vimos que a teoria fundamentada pereceu diante da conveniência daquele grupo de mestres de ver o seu mestre ser declarado vencedor, muito embora todos soubessem que ele não estava a altura do conteúdo da retórica do adversário.

Vimos que a conveniência do poder temporal e da igreja, naquele momento era de que não se discorressem sobre novos pensamentos, induzindo a continuidade do “status quo” predomimante.

Cansei de ouvir e combater um chavão na minha cidade natal, o de que os donos da cidade não queriam o seu desenvolvimento, e nas primeiras vezes, atribuíam o cargo de donos da cidade aos grandes proprietários rurais, os quais, pretensamente queriam as pessoas nas suas lavouras; em seguida, falavam dos grande empreendedores da cidade, os quais, pretensamente, queriam funcionários sem formação, com mão de obra mais barata, para que seus custos fossem menores, e hoje, não sei qual é o chavão. Acredito que vencidos os dois e a cidade tendo evoluído, quem sabe tenham desaparecido os chavões, ou quem sabe, substituído por algum que diz respeito a algum partido político dominante contra ao qual o popular queira se insurgir, afinal de contas é natural que exista a reação de repúdio, mesmo que seja contra uma pretensa inércia, e é esta ação que move realmente as engrenagens da evolução, nela embutida o desenvolvimento cultural e econômico de qualquer povo.

Porém, exista ou não um chavão ou mote, vejo que o povo continua ainda desorganizado e padece das dores que ele mesmo se aflige pessoalmente. Ouvindo os clamores nos grupos de discussão, vejo sempre: SOU CONTRA!, ou ainda ELE NÃO ESTÁ FAZENDO DIREITO, e outros pensamentos e reclamos do mesmo conceito, muito embora de diferentes grafias e contextos, e então sou obrigado a perguntar por que tanto “especulativismo” (levantamento de ideias contrárias a tudo, que não levam a nada, nem embutem sequer uma ideia de como agir, de mudança), e porque tão pouco “operativismo” (contribuição de ideias sobre COMO PROCEDER, como CONSERTAR).

Penso que é mais fácil e rápido falar que tudo está errado, e que para emitir opinião concreta, coerente, factível de ação, sobre algo, representam verbos que causam dor de cabeça social, ou seja dor de cabeça a cada um e então é mais fácil protestar, mesmo que sem embasar o porque, nem sugerir como corrigir, é mais fácil. Acho que representam verbos agradáveis; PORÉM NÃO É ISTO QUE CONSERTA O QUE PRECISA SER MODIFICADO, e por certo não é isto que conduz para a evolução, pois a evolução causa primeiramente a dor (fase da construção), para em seguida proporcionar o prazer (efeitos).

Operadores são os pedreiros, os construtores, aqueles que colocam realmente e literalmente a mão na argamassa, e especuladores, são aqueles que assistem ou investem, e assim, dão seus palpites, as suas opiniões, os seus “pitacos”.

Como iniciamos, novamente, novo período (no dizer do meu grande e saudoso amigo Kitisi Iamauti) eleitoreiro, quero recomendar que nossos concidadãos sejam criteriosos, atentos no ouvir, analisar e concluir e cautelosos no falar.

Esta crônica foi elaborada especialmente tendo em vista o que vejo acontecendo na cidade de Lins em todos os meus anos de assistente coerente, porém, poderá, em tese, servir para outras cidades e outras realidades também.

Walmir da Rocha Melges – Publicado originalmente em 20 de junho de 2012

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